Contos do Rio - Lembranças
O arco é majestoso, na rampa sobem milhares de pessoas, um hino ecoa, o carro passa, a lembrança fica, a infância estica e a cabeça gira na direção perdida da imagem rica que ficou: o estádio de futebol lotado, final de campeonato, bandeiras desfraldadas, braços erguidos, gestos coreografados e eu lá, menino, cantarolando com ardor o refrão que me vem agora na ponta da língua quando paro no sinal, ou será que engarrafou? Que calor! A buzina me desperta, fico alerta, suspiro fundo, mas não muito que a fumaça já é muita e não para de aumentar, que droga! Toda esta poluição logo agora, meu Deus, onde vamos parar?
Tudo é verso, é certo, inclusive o reverso: a perda do campeonato, a gozação dos colegas, a inevitável ofensa ao adversário com palavrões rimados, ritmados pela derrota amarga, ora, que importa! O importante é que algo fique na memória, mãe da história que um dia eu vou contar na esquina de outra vida que outras vidas, enfim, vão perpetuar. Não, não é minha culpa, se o hino do meu time na boca da torcida abre todas as comportas e o sentido adormecido, de repente, faz sentido, trazendo uma enxurrada de emoções, formando novas imagens, compondo antigas seleções.
Quem diria, com apenas 12 anos e já torcia como um fanático, rato de Maracanã, conhecedor de todos os atalhos, tantas vezes geraldino, outras tantas, com meu pai, rei da arquibancada, no meio da torcida alucinada. Comia hot-dog, bebia mate gelado e sentia na boca o gostinho da vitória, a vitória que era simplesmente estar ali, afora a eventual e suprema alegria de ver o meu adorado time ser campeão e poder desfrutar o prazer de zoar os amigos derrotados e contar na escola a aventura inesquecível de ter visto de perto aquele incrível gol de placa, me esmerando nos detalhes para tentar impressionar a menina mais bonita da sala.
É impossível esquecer se você não se perder na robotização de um trabalho estafante, na rotina diária que embota a imaginação e no requinte da automatização de modernos aparelhinhos complicados, pois a memória emocional não cabe na programação de um computador de dados, apertando teclas variadas, nem no controle remoto, comandando a telinha colorida no horário mais nobre.
E lá vou eu, moleque: soltando pipa com cerol na praia, jogando bolinha de gude na praça e futebol de botão com meu irmão, brincando de pique-esconde na escola e correndo do cachorro do vizinho como um centroavante em direção a meta adversária, driblando fantasmas, dando passes imaginários, fazendo gols fantásticos, trocando e tocando as bolas, muitas bolas, todas as bolas que eu tive: de meia, de plástico, de couro, de sabão. São as recordações que ficaram e me fazem ter a certeza de que serei sempre uma eterna criança, um aprendiz na vida, abismado com a grandeza da lembrança de existir.


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