Monday, October 01, 2007
Sunday, June 17, 2007
Crônica - Estrangeiro
Ah, meu Rio de Janeiro... Depois de tantas viagens retorno a minha cidade natal, mas se minha difícil sina é ser um estrangeiro contínuo em qualquer lugar que caminho, então melhor sê-lo por aqui, onde nasci, cresci e me perdi, pois serei, não sendo, enquanto formos todos, não indo! Aqui onde o mar perfuma a existência e meu corpo se enrosca em ondas perenes, bailarinas de flutuante elegância. Cidade maravilhosa, minha musa imortal, amante mendiga de corpos morenos sedentos de luz, prazer genial e principal lazer de tantos irmãos do aqui e agora, dos que foram e que virão, pois aqui harmonizam-se tônicos, a vida, o sol e o mar. Faz calma no olhar, há nuvens esparsas no céu e um arco-íris que não dá, não dá pra acreditar. A tarde cai, o dia passa, minha cachaça é esta cidade que não sai de mim, não sai.
Oh, brisa, brisa repentina, brisa que brilha cristalina, no olhar que descansa, entre muitas andanças e tantas ofeganças, me leva, eu que criança estou, repleto em teu frescor, de mares e terras outras, todas ostras, pois pérolas de sonhos carregam, no sono, onde eu sou. Seja assim, seja assado, seja profano, seja sagrado, seja eu, seja você, sejamos nós unidos pela benção do nosso Cristo Redentor.
Vamos, meu irmão carioca, sorria, eu te amo, curta a vida, não reclame, fure a onda, voe longe, eu te canto em qualquer canto. Pule o muro, troque o disco, desfrute este balanço. Celebre, seja leve, dance a vida, seja a ginga do crioulo muito doido do meu samba. Como? Ora, vá à luta, com doçura, toque o sonho com o coração. Pinte o sete, faça um verso, componha uma canção. Ame, seja feliz, mesmo que seja, ainda mesmo, por um triz.
Peço aos deuses que te olhem, meu Rio de Janeiro, e iluminem o teu caminho, tão fadado ao desvio. Peço aos anjos que me guiem quando, chegada a hora mais imprecisa, perco o passo em desatino. Peço aos homens que se amem e que cresçam como amigos, pois na hora mais antiga da triste despedida, este é o tesouro que se leva desta vida.
Contos do Rio - Lembranças
O arco é majestoso, na rampa sobem milhares de pessoas, um hino ecoa, o carro passa, a lembrança fica, a infância estica e a cabeça gira na direção perdida da imagem rica que ficou: o estádio de futebol lotado, final de campeonato, bandeiras desfraldadas, braços erguidos, gestos coreografados e eu lá, menino, cantarolando com ardor o refrão que me vem agora na ponta da língua quando paro no sinal, ou será que engarrafou? Que calor! A buzina me desperta, fico alerta, suspiro fundo, mas não muito que a fumaça já é muita e não para de aumentar, que droga! Toda esta poluição logo agora, meu Deus, onde vamos parar?
Tudo é verso, é certo, inclusive o reverso: a perda do campeonato, a gozação dos colegas, a inevitável ofensa ao adversário com palavrões rimados, ritmados pela derrota amarga, ora, que importa! O importante é que algo fique na memória, mãe da história que um dia eu vou contar na esquina de outra vida que outras vidas, enfim, vão perpetuar. Não, não é minha culpa, se o hino do meu time na boca da torcida abre todas as comportas e o sentido adormecido, de repente, faz sentido, trazendo uma enxurrada de emoções, formando novas imagens, compondo antigas seleções.
Quem diria, com apenas 12 anos e já torcia como um fanático, rato de Maracanã, conhecedor de todos os atalhos, tantas vezes geraldino, outras tantas, com meu pai, rei da arquibancada, no meio da torcida alucinada. Comia hot-dog, bebia mate gelado e sentia na boca o gostinho da vitória, a vitória que era simplesmente estar ali, afora a eventual e suprema alegria de ver o meu adorado time ser campeão e poder desfrutar o prazer de zoar os amigos derrotados e contar na escola a aventura inesquecível de ter visto de perto aquele incrível gol de placa, me esmerando nos detalhes para tentar impressionar a menina mais bonita da sala.
É impossível esquecer se você não se perder na robotização de um trabalho estafante, na rotina diária que embota a imaginação e no requinte da automatização de modernos aparelhinhos complicados, pois a memória emocional não cabe na programação de um computador de dados, apertando teclas variadas, nem no controle remoto, comandando a telinha colorida no horário mais nobre.
E lá vou eu, moleque: soltando pipa com cerol na praia, jogando bolinha de gude na praça e futebol de botão com meu irmão, brincando de pique-esconde na escola e correndo do cachorro do vizinho como um centroavante em direção a meta adversária, driblando fantasmas, dando passes imaginários, fazendo gols fantásticos, trocando e tocando as bolas, muitas bolas, todas as bolas que eu tive: de meia, de plástico, de couro, de sabão. São as recordações que ficaram e me fazem ter a certeza de que serei sempre uma eterna criança, um aprendiz na vida, abismado com a grandeza da lembrança de existir.
Currículo Artístico
1980: participa do Grupo de Capoeira Senzala/RJ; 1982: inicia estudos de balé clássico com Renée Simon e Helfany Peçanha e dança moderna com Emanuel Brasil, em Niterói; 1985: ingressa na Escola de Danças Maria Olenewa – RJ e dança o balé “Quebra-Nozes” no Maracanã/RJ; 1986: dança na Ópera “O Guarani” de Carlos Gomes, com coreografia de Sílvio Dufrayer; 1987: ingressa na Cia. Balé do Terceiro Mundo, dirigida por Ciro Barcelos e faz temporada no Teatro Benjamin Constant/RJ e tournée por todo o Brasil com os balés “Canibais Eróticos” e “Rebento”, participando ainda do Carlton Dance Festival; 1988: abertura do programa “Fantástico” da TV Globo, videoclip com Egberto Gismonti na TV Globo e temporada com o espetáculo musical “Dzi Croquetes” no Teatro Tereza Raquel, com direção de Lennie Dale e Wagner Ribeiro; 1989: assistente de coreografia no musical “Meu Refrão Olé Olá” no Palladiun de São Paulo com direção de Abelardo Figueiredo; 1990: gravação do filme “Pure Juice” direção de Stefano Rola e coreografia de Carlota Portela, solista nos balés clássicos “Dom Quixote” com a Academia Helfany Peçanha e “A Bela Adormecida” com a Academia Simone Falcão em Niterói; 1991: tournée pela Espanha com a Comédia Musical de Juanito Navarro e temporada no Teatro El Calderon de Madrid com a Comédia Musical de Fernando Esteso, professor de Dança Moderna e Alongamento na Faculdade Autônoma de Madrid; participa do Musical “Madrid, Madrid” no Teatro Musical Nuevo Apolo com direção de José Tamaio e coreografia de Ricardo Ferrante; musical infantil “A Bela Adormecida”, direção de Jorge Azevedo, no Teatro da UFF em Niterói; 1994: professor de expressão corporal e alongamento na Academia Free Dance em Niterói; 1995: bailarino do Especial “Não Fuja da Raia” da TV Globo com coreografia de Olenka Raia; 1996: corpo de baile do programa “Não Fuja da Raia” na TV Globo; 1999: 1º lugar no Festival de Poesias da Famath e 3º lugar no Festival de Poesias do Sesc; 2000: publica o livro de poesias “Dançarilho” pela editora Muiraquitã; 2001/2003: participação em diversos saraus de poesia no Rio de Janeiro e em Niterói; 2004; diretor do Espaço Cultural Tribo Urbana em Niterói; 2005: performance com a dança giratória no projeto “Interculturalidades” na Universidade Federal Fluminense de Niterói; 2006: performance com a dança giratória no evento “Arte Jovem Brasileira” no Espaço Convés, no Campo de São Bento e na I Jornada Holística do Espaço Cultural Tribo Urbana; 2007: performance com a dança giratória no evento “Simulacro”, em Niterói.
Saturday, June 16, 2007
Pureza
O sol que aconteceu a noite absorveu,
mas tua luz é eterna
e resplandesce na pureza do teu coração.
Não vejo fim nisto tudo,
que seja eterno enquanto puro.
Tudo mais eu desconjuro.
mas tua luz é eterna
e resplandesce na pureza do teu coração.
Não vejo fim nisto tudo,
que seja eterno enquanto puro.
Tudo mais eu desconjuro.
Tuesday, July 04, 2006
Cores & Imagens
CORES E IMAGENS
VIAGENS DA ALMA NO ÂMAGO DAS ARTES
UM OLHAR UMA LUZ
UM TOQUE DE SENSIBILIDADE
TOCANDO EM NOSSAS MENTES
BEIJANDO NOSSAS FACES
NAS TARDES NAS NOITES
NO AMANHECER DE OUTRAS HORAS
QUE PINTAM AO PASSAR
QUE PASSAM A ENCANTAR
TODOS AQUELES QUE CONSEGUEM VER
A BELEZA FLORESCENDO EM NOVAS CORES
EM OUTRAS IMAGENS
QUE SE HARMONIZAM NAS TELAS CRIADAS
PELO ARTISTA QUE AMA
QUE GERA
QUE SE ENTREGA
VIAGENS DA ALMA NO ÂMAGO DAS ARTES
UM OLHAR UMA LUZ
UM TOQUE DE SENSIBILIDADE
TOCANDO EM NOSSAS MENTES
BEIJANDO NOSSAS FACES
NAS TARDES NAS NOITES
NO AMANHECER DE OUTRAS HORAS
QUE PINTAM AO PASSAR
QUE PASSAM A ENCANTAR
TODOS AQUELES QUE CONSEGUEM VER
A BELEZA FLORESCENDO EM NOVAS CORES
EM OUTRAS IMAGENS
QUE SE HARMONIZAM NAS TELAS CRIADAS
PELO ARTISTA QUE AMA
QUE GERA
QUE SE ENTREGA
Separação
Eis-me novamente só
somente eu e o mundo todo
comigo, sem sabê-lo
porém atado, unido
na inconsistência de um suspiro.
Eis-me novamente perdido
diluído no tempo escorrido
sem poupar-me, sem cansaço
porém doído,
com o coração mais uma vez partido.
Eis-me novamente livre
desobstruído
com a mente límpida, sem poder-me,
mas com todos os sonhos do mundo,
pronto para um outro início.
somente eu e o mundo todo
comigo, sem sabê-lo
porém atado, unido
na inconsistência de um suspiro.
Eis-me novamente perdido
diluído no tempo escorrido
sem poupar-me, sem cansaço
porém doído,
com o coração mais uma vez partido.
Eis-me novamente livre
desobstruído
com a mente límpida, sem poder-me,
mas com todos os sonhos do mundo,
pronto para um outro início.
Monday, July 03, 2006
Poesias do livro "Dançarilho"
Dedicatória
Para o meu melhor amigo, tão antigo
quanto possa alcançar minha lembrança
de uma adolescência já perdida
que nos foi demais de rica. Tão presente
quanto possa expressar meu carinho
a meio caminho de comum amadurecimento
de fruta exposta ao tempo incansável,
implacável monumento. Tão constante
quanto o mar que, ora tranqüilo, ora raivoso,
não se cansa de inundar, potente,
minh’alma sempre carente. Tão eterno
quanto possa durar minha admiração
por tudo que é, que ser é seu poder,
faz, mesmo quando o ato desata,
e representa, ao longo desta estrada:
sinal luminoso e asfalto,
acostamento, abismo e madrugada.
Ao Mestre
Busco, não minto, a tua admiração,
pretensão de quem te admira,
viajando dentro de um coração
que expande quando te mira.
Desejo, não nego, o reconhecimento
pela minha obra de cobra
rastejante pelo conhecimento
que sobra e rola na tua obra.
Aguardo, paciente, o minuto que passa
ciente de que o poderoso tempo
é um velho amigo e comparsa
que unirá na luz nosso pensamento.
Agradeço, desde já, a tua atenção,
por mínima que seja será
sempre com grande gratidão
que recordarei teu generoso olhar.
Prefácio
Dançando no vácuo do mundo,
centrado por falta de assunto,
é no rebuliço das sombras movediças
onde, reflexivo, respiro e me inspiro
sob o olhar protetor dos anéis de Saturno.
Por isto me exponho, de preferência, à luz soturna,
desafiando fantasmas (que são tantos)
em busca de virtudes (que são raras),
agindo muitas vezes como o mendigo
que expõe suas feridas e mazelas
para obter alguns trocados
ou como a puta que vende o seu vício
para preencher a solidão e o prazer
dos senhores da moral e do pudor.
A verdade é que me sinto intranqüilo
ante esta excessiva exposição à luz da escrita.
Gostaria então, nestas linhas, por sedução
de conquistar a sua cumplicidade
antes do pavor de apresentar-me,
a mim, ou a um outro,
apelidado pelos amigos de andarilho,
transformado pelo prazer em dançarino,
inventado e moldado por um poeta
que talvez tenha mesmo existido
ou, quem sabe, tenha sido apenas sonhado
pela imensa noite que se quer estrelada.
Caos
No caos ordenado da loucura racional
somos todos alucinadamente normais
vagando algemados aos vícios profundos
erramos no mundo sem nunca encontrar
o caminho solar das virtudes florais
perdidos que estamos no verbo formal
que foi no início e será no infinito
um tortuoso e magistral labirinto
de versos diversos, frutos do universo
das oníricas sementes selvagens da mente
que, avidamente, a terra absorve
e o homem, reino de idéias, explode
na caótica dança que esculpe a linguagem.
Revolta
Maldito esteja, que seja
este inferno de merda, minha terra ferida
vulcão que acumula e ejacula
dinheiro podre sobre a cidade partida,
corroída pela miséria indecente
da desgraça que arregaça
a cabeça deste povo, pau oco
sem troco, a pedir esmolas
numa hora que não cola, só esfola
e agora? e agora?
Foda-se, deixem-me em paz
qu’eu não sou capaz
de tragar tanta mesquinharia.
Senhor, dê-lhes a outra face,
fresca como uma alface,
que se lambuzem os beiços
em beijos tesos de desejo
e cuspam o catarro azedo
do meu peito no teu leito
sem defeito, um grande peido
é o que respiro num suspiro
quando rondo o teu beco
a separar o que está misto,
isto! meu prazer é catar lixo,
porco escrito, mal descrito,
lazer de um poeta fudido,
fundido na imundície
da fumaça no céu, da sujeira no mar,
aturdido, grunhindo ao luar:
Foda-se! que me importa
a horta desta horda
de corruptos escondidos
sob a barba de políticos
amamentados por indecentes
burocratas impotentes
sai pururuca, sai de mim!
Vai de costas a sonegar,
a especular antes do fim
do dia do último juízo
apocalíptico final
qu’eu não verei em paz
porque eu tô fora,
tô fudido mas tô fora
desta amarga arca estatal
que não afunda, não nada,
apenas bóia, na onda da história
de um país analfabeto, mas esperto,
muito, muito, muito esperto,
e pra quem não vê
e não aprendeu no abc,
o cú deste Brasil canalha
fica na baía da Guanabara
e nós - pobre de nós -
nos deliciamos inconscientes
nadando na própria merda!
Turbilhão
Clara, clareia, avança turbilhão
tateio corpos no escuro, busco a mão de um irmão.
Negra estrela no céu do meu vulcão,
escrevo versos na areia, penso sempre em contramão.
O que dito não foi dito, o que me vem também se vai,
eu me canso a toda hora, eu me calo pra escutar
a voz do tempo quando passa passeando sem passar.
Todo dia é dia de ficar e d’ir embora,
a barca cruza a baía, meu pensamento é um mar,
vejo como ele se agita como ondas sem parar.
Danço a dança das marés, deixo o vento me guiar.
Solto os nós, libero a libélula,
pinto suas asas, deixo-a voar,
pro céu todos vamos de carona quando a festa terminar.
Eu não vou passar a vida sem sorrir e sem gozar
preciso me amar, preciso me amar,
antes de mais nada eu preciso me amar.
Fuga
Tenho estado perdido entre danças
indeciso entre viver ou sonhar
as vezes temo pela minha segurança
as vezes temo não gozar
a vida viva a mim se apresenta
e eu, burro! tento decifrá-la
como que me enganando
que será possível
escapar de senti-la,
que será possível
a cada dia desmenti-la
como se eu não soubesse
que não há escapatória
que a história é incisiva
e que a minha covardia
um dia, ai de mim,
terá que ser vencida!
A Porca
Veneno,
como é doce o teu tormento
e te ver chorar é como um êxtase
para o meu instrumento
que te acena
nova mente
tu te inventas
e eu te moldo
ao mesmo tempo
com a total fúria
do meu excremento.
Veneno,
em cada grito ecoa
uma dor suprema,
em cada dança surge
um turvo movimento
assassino
tu enforcaste a morte,
tu engoliste o tempo
e cuspiste mais uma vez
a tua glória imensa
sobre a porca inveja
que corrói minhas entranhas
como ácido escaldante
ela, justo ela,
fonte inesgotável
deste manancial sangrento
de puro veneno!
Impotência
Um buraco, no espaço
e dentro deste buraco:
nada! Nem um som,
nem mesmo um átomo
que inicie algum estrago.
Nada! Nem a mínima esperança
ou remota possibilidade
de alguma fecundidade.
No espaço, um buraco
negro tudo, obscuro,
completamente escuro!
Não mais, nem menos
nem pouco, não muito
simplesmente nulo!
Lugar comum, nenhum
perfeito equilíbrio possível
para o meu desequilíbrio.
Apenas nada, o fundo
buraco do meu mundo.
Tristeza
Deixo que ela chegue, ela me invade,
úmida, se faz notar pelos olhos.
Não sei de onde vem
quase nunca sei o porquê
mas ela está sempre aí,
quando vou e quando regresso
vestindo tons escuros, nunca vibrante
mas sempre feminina,
minha menina, tristeza,
te aceito
porque faz parte da minha beleza.
Ímpeto
Mima a rima, poesia
abre o verso, ventania
em direção ao espaço sonhado
nunca dantes navegado,
ímpeto fatal,
aventura, ficção, magia
febre ocidental
perder-se e achar um outro
que pensa estar achando
em um outro a si mesmo,
que loucura, esta cultura
deslumbrada com a fama
dominada pela mídia
alienada pela moda,
afiada espora
do consumo obrigatório,
compra, vende, explora
o trabalho displicente
de uma gente sem presente
negro, índio, cigano,
te amo, alma e avesso
do macaco escravo branco
trancado no escritório
ou na fila de um banco
abre a porta burguesia!
há um mundo em cada esquina
um infinito em cada dia
uma morte em cada vida
viva a simples alegria
de uma vida criativa
o poder da simpatia,
rompendo muralhas,
está estampado
onde um gesto espontâneo
ilumina as fachadas,
que fachada, o teu sorriso,
estrelado céu de maio,
não resisto, desmaio,
quando ergues o teu véu
e esparramas puro mel
no tonel de um coração
apaixonado, meu irmão,
que enfado, este descaso
pelo atraso do meu passo
se quem passa não me escapa,
não te capo nem me calo
emburaco neste trato
e, enfim, disparo:
abre a rima, ventania
mima o verso, poesia
que esta viagem é um barato!
Projeto
Observo, obcecado, o vôo alto
da idéia sobre o vasto planalto,
nascida da eclosão de um desejo
que, sem medo, explodiu o teto,
tomou forma e se tornou projeto.
Espreito, consciente, o primeiro ato
desta sinfonia de fatos
orquestrada pela forte vontade
que, com garra, fará deste projeto
uma nova e rara realidade.
Convocarei, então, meu anjo arquiteto,
rico na sua presteza e bondade,
expulsaremos juntos pesados pesadelos,
removeremos o preconceito dos mais velhos
e, sonho a sonho, ergueremos um castelo.
Convidarei, por fim, minha doce namorada,
bela na sua entrega apaixonada,
teceremos com carinho nosso ninho
e, verso a verso, caminharemos
frutificando novos universos.
Metamorfose
a lagarta larga
atrás de si
tudo o que já era
&
uma bela borboleta
se revela
buscando novas eras
Equilibrista
Atravesso vales e rios
montado em cavalos alados, bravios
que me dão carona quando aceno com um sorriso.
Cruzo o céu estrelado fazendo artes e amizades,
a lua cheia é a minha guia,
instiga meu peito, povoa minha cabeça
com verbos floridos e gestos noctívagos.
Meu ser todo é uma metamorfose
que não cessa nunca:
sou amigo do bandido,
bandido sem amigos;
sou poeta dançarino,
funcionário equilibrista.
Entre o zen e a conquista
mantenho-me por sobre o muro
jogando flores para ambos os lados
brincando de viver, sem medo de perder,
vivendo sem saber, nem o como, nem o porquê.
O Dançarino
Ora, de que adianta jogarem pedras no rio
se ele segue firme o seu caminho?
De que adianta gritarem ao rio: “Cuidado! Devagar!”
quando ele vislumbra o mar a sua frente
e ele próprio se sente mar?
Como pode os que correm à margem
gritarem e aconselharem ao rio
se não navegam no seu desvario?
Ora, de que adianta ter os pés firmes no chão
se o chão está sujo e enlameado?
Melhor mesmo não seria voar?
Ou quem sabe apenas dançar?
Eu jamais acreditaria em um dançarino
que tivesse os pés firmes no chão
ele me pareceria muito pesado
(todos estes me parecem muito pesados)
e, afinal, como conseguiria ele saltar?
Portanto, de nada adianta ofender o etéreo dançarino
pois isto lhe dá forças para saltar
e apenas o faz, em pleno salto, chorar!
Dançar a Vida
Não me venham com príncipes, reis ou rainhas
a monarquia é um conto de fadas para criancinhas
e um novo homem velho se lança inteiro
desde um terceiro mundo primeiro.
Nietzsche o descreveu, com letras dançantes,
Nijinsky o dançou, com gestos pensantes
e, como eles, muitos enlouqueceram sucumbidos
a custa de trilhar este caminho
que ele percorre com alegria e determinação
transformando, sem pedir perdão,
palácios com cisnes dourados
em comunidades com borboletas anárquicas,
neuróticas Giseles mumificadas
em radiantes Isadoras apaixonadas,
o vasto passado num presente menos trágico
e o futuro... quem sabe? Talvez
“Dançar a Vida”: viver da Dança, Música e Poesia
buscando na arte ampliar a consciência,
transformando o “sexo, drogas e rock and roll”
em Amor, Trabalho e Sabedoria.
Escola
Danço, assim como respiro
tanto quanto como amo
tanto quanto como existo.
Sigo fielmente uma escola
que é a da dança
assim como a vida me ensina,
que é a da vida
assim como vive a poesia.
Aula
Ver o outro
ouro torto
e lapidar
Ter sentido
mestre amigo
e ampliar
Ser seguro
mesmo escuro
e clarear.
O Outro
Do sono que faz minha cabeça
na noite grisalha do conhecer-me sem fim
desperto, enfim, desvencilhando-me
do reflexo estéril no espelho convexo
que se abre à paisagem virginal
do primeiro abraço matinal
indo além do claustro narciso
do ver somente a mim
para renascer no enigma do outro
que se faz mais que tesouro,
se faz a fonte inesgotável
de um renovador conhecimento
e se faz a ponte por onde,
verso e mistério, desfilam seus encantos.
Trilogia Amorosa
I
Ah, quanta sensualidade transparece
neste pedaço de menina, neste pedaço de mulher,
quanta ternura há nesta sensualidade
e como ela me faz delirar...
Flor altiva de pétalas cativas,
olhos de lince que disparam faíscas,
doçura constante no ar.
Teu cheiro é o de uma fêmea no cio!
Teu ímpeto o de um mar bravio!
Estrela de todas as noites perdidas,
oceano de tantas lágrimas sofridas,
sacerdotisa da deusa Iemanjá.
Te quero cada vez mais!
Te amo como o poeta ao luar!
Madona, amazona, odalisca,
eterna namorada por tantas vidas
nesta aventura sublime que é amar.
II
Tua língua descarada
com sabor de sacanagem
em minha boca escancarada
umedecida por teus lábios!
Teu corpo enlouquecido
pelo calor do meu abraço
amarrado, convulsivo,
sussurrado e descontínuo
agora, é tudo, eu quero e não seguro
a vontade do teu sexo que me invade
rio escuro, sangue tinto,
libidinoso em tal estrago
que não sei mais quanto valho,
meu orgulho é meu caralho,
meu caráter é feito palha,
meu amor... um espantalho,
falho e enrolado,
que me enrosca como a cobra
que me cobra, cascavel,
sentimentos cor de um céu,
vasto, tão vasto
que não sei mais o que sou,
que não sou mais que fusão:
odores, sabores,
tato, imagens, audição,
um animal é o que sou!
III
Quando te vejo, oh minha menina,
me invade um raio de alegria,
meu coração dispara em correria
e o dia mais triste e cinzento
se transforma no mais reluzente,
espelho d’alma límpida e inocente.
Mansamente, porém, a noite se aproxima
e eis que baixa uma neblina
densa como o mais turvo pensamento
impregnado por lúbrico tormento:
tantas são as faces do amor,
tão variado o seu sabor
que de saboreá-lo não me canso,
desejando por todos ser amado
e distribuindo-o, abusado,
como um anjo desvairado.
Ai meus ais, quantos ais
este apetite me traz
pois absurdos preconceitos
recheados por direitos e defeitos
dificultam, infernais,
o que deveria ser aqui, primordial,
ordem primeira e natural.
É... penso cá com meu violão,
talvez não seja para este mundo,
talvez seja para um outro mais além.
É pena, mas é também muito bom
lutar por este prazer, amém.
Teus e Meus
Teus olhos claros são vasos cheios de lágrimas
tão cheios que não fixam a ação
apenas transbordam com emoção fraterna
gotas de poesias doces e singelas
que pingam, pingam e transformam
o duro asfalto num plácido lago
que, profundo como o passado,
reflete as cores e as coisas da amplidão.
Meus olhos escuros te miram com atenção
tão vidrados que não captam mais nada
apenas buscam decifrar teus mistérios,
penetrar na fragrância da sensibilidade
florida que transpassa por cada poro
da tua suave pele de menina,
mergulhados na paz do teu lago
que umedece meu céu e fecunda meu chão.
O Ato em Si
O ato em si
resplandece
quando acontece
do prazer estar ali
intrinsecamente
impregnado
no exato momento
da vontade imaculada
de realizá-lo.
Mas, se por acaso,
você o reconhece
algo em mim
se engrandece
pois tua atenção
me renova
e mantém acesa
a chama da criação
redentora
que aflora
quando você me olha.
Tesão
Se na dança me desfaço
faço um outro enamorado
e simplesmente entretido
desfaleço em cada passo
no compasso da canção,
sem pudor, ao acaso
todo, todo coração
salto, embalo, rodopio
sou Shiva, Cristo, Dionísio
chego mesmo a ser Ninguém
apenas energia sem nexo
todo sexo, namorando o universo
um verso dançando
escrito por um corpo
inflamado
repleto de tesão.
Paixão
A paixão quando rola
é uma bola de tesão
muito viva e criativa
que infla imperativa
até que um dia estoura,
louca, estrondosa,
sem nenhuma piedade
e a gente se esfola
de dentro pra fora,
preto, branco ou rosa
e chora a dolorosa
ausência da vontade
primitiva de existir
dissipada carinho por carinho
no tempo exato da flor
que, despetalada, sucumbe à dor.
Noite Obscura
Na noite obscura em que me perdi
você não estava, você não tinha vindo,
você não viria mais.
Na noite obscura eu me paralisei
na lembrança do que fomos nós:
dia claro e límpida manhã
de abraços, sorrisos e amor.
A noite obscura me atormenta
e não a quero mais,
por isto invoco versos, danças e canções
- tudo o que sou -
na esperança de que uma nova aurora
me desperte do pesadelo
da noite obscura em que estou
e para que de mãos dadas
possamos de novo atravessar
o portal que leva ao paraíso
do dia claro e da límpida manhã
de abraços, sorrisos e amor.
Cantada I
Te olho de longe, assim meio de banda
(encabulado ainda). Me falta coragem
para chegar mais perto, olhar bem de frente,
e assim, de repente,
dizer como és linda,
capaz de me deixar
como que enfeitiçado,
dominado pela louca vontade de te conhecer
e saber como é o teu viver,
as coisas que mais gosta
pra poder te oferecer
na esperança de que um dia
você venha a se interessar
por um tipo romântico, intrépido amante,
que faria de tudo,
na medida do impossível,
para te fazer sorrir
imensamente, para sempre,
te deixar feliz!
Cantada II
Te quero em silêncio
te desejo em meu íntimo
como o gato que arma o bote
sem, no entanto, ousar o ato.
Apenas o olhar indomável é capaz de traição
dando passagem ao que sinto
no profundo coração,
revelando aos mais sensíveis
minha secreta paixão.
Paixão! Esta palavra atrai ao amante
e é com facilidade que ele a coloca;
que seja apenas desejo,
sexo, amizade ou afeição,
que seja mesmo tudo muito: torrencial paixão!
Não há medo pois a loucura
é amiga da minha razão.
Um beijo eu adoraria, uma noite me encantaria,
ao teu lado meu ser todo brilharia
tigreza, princesa, rainha
quer sair comigo
Riqueza
És rica, como és rica
com sua branca voz divina
voz de vida amanhecida
puro som, limpo lamento,
amansador dos meus tormentos.
Encanto mágico o teu canto
de anjo pleno de talento
serpenteando desde o ventre,
insinuante em cada instante,
por entre meus sonhos inocentes.
És rica, como és rica,
tão rica que me inspira
danças lindas, rimas vivas,
apaixonados movimentos
de um dançarino preso ao vento
intenso, que emana do teu templo,
inspirado, imaculado monumento,
embriagado de vontade,
frutas tropicais, mel e menta:
riquezas d’alma benta.
Além do Bem e do Mal
Além do Bem e do Mal
acordo novo a cada dia
pois todo dia, quando acordo,
tenho a sua companhia.
Além do Bem e do Mal
nossa vida continua
e apesar de tão confusa
quero mais esta loucura.
Além do Bem e do Mal
seguiremos namorados
enxugando juntos nossas lágrimas
nos fazendo sempre apaixonados.
Além do Bem e do Mal
o coração no peito bate forte
e mesmo na fraqueza e na desilusão
faço do escutá-lo o meu esporte, pois
Além do Bem e do Mal
não estão o prazer e nem a dor
ou mesmo a tristeza ou alegria
ah, mas certamente muito além está o amor.
Madrugada
Longe, um barco avança
sob o clarão de uma lua
esplendorosamente cheia
cujo reflexo beija meus olhos
e afaga meu sonho latente.
Não se ouve um pio de coruja,
não se escuta um latido fremente.
Infelizmente, nem mesmo um canto.
(Não, a lua não canta.)
Dentro, um sentido se lança
sobre o infinito de uma rua
milagrosamente vazia
cujo asfalto negro descansa
e serve de caminho para um gato vadio.
Não tocam as buzinas irritantes,
não há motores em funcionamento.
Felizmente, é a hora do silêncio.
(Sim, minha alma canta.)
Travessia
Faz calma no olhar,
há nuvens esparsas no céu
e um arco-íris que não dá,
não dá pra acreditar.
A tarde cai, o dia passa
a lancha vai, minha cachaça
é a travessia
que não sai de mim, não sai.
Tantas vezes foram
que uma luz ficou
entre aquela que foi
e a outra que voltou;
tão clara era
que na paz frutificou
e uma semente de pureza
em lucidez se transformou.
Oh, brisa,
oh, brisa repentina,
brisa que brilha cristalina
no olhar que descansa
entre muitas andanças
e tantas ofeganças
me leva, eu
que criança estou
repleto em teu frescor
de mares e terras outras,
todas ostras, pois pérolas
de sonhos carregam, no sono,
onde eu sou.
Pequena Oração
Astro-Rei, de celebrada nobreza
santificado seja o teu brilhar
e perpétuo o teu morrer, renascer e germinar.
És por ti que a Terra gira e vibra
que a vida é viva e contamina
com amor e com alegria
o pão nosso de cada dia.
Oh, Natureza! Mãe de todos nós,
súditos da tua mão,
te reverenciamos com a pureza da arte
que criamos como forma de oração.
Infinitivo Pessoal
Caminhar por entre alvoradas
orvalhando madrugadas
com o mel das ilusões
Harmonizar os tons fascinantes
que percorrem imensidões
compondo novos horizontes
Formar novas constelações
com as estrelas mais solares
que resplandecerem nos olhares
Viajar na magia do arco-íris
sempre em busca do tesouro
cujo ouro é a harmonia
Amar com a fina sutileza
esvoaçante das borboletas
semeando naturezas
Criar sonhos de alquimia
e neles plantar melodias
que floresçam em poesias.
Ocaso
Imperceptivelmente, avança,
em direção ao eterno consolo
do retorno ao mesmo solo.
Flui, luminosa morbidez,
em matizes harmoniosas
qual bordado de Maria.
Serena, celeste pintura,
desenhada a pulso ausente
com cósmica tintura.
Inexprimível pulsar,
ritmo místico, impulso,
da esplendorosa natureza.
Pleno de espírito, respiro,
sonho nuvens sonâmbulas
e cantigas românticas.
Passo de tudo,
gato sem passo, ocaso,
da ação contemplativa
Mensagem
Sorria, eu te amo vá à luta
curta a vida com doçura
não reclame toque o sonho
fure a onda com o coração
voe longe pinte o sete
eu te canto faça um verso
em qualquer canto componha uma canção
pule o muro flua, seja um rio
troque o disco pororocante
desfrute este balanço no oceano apaixonante
eu te ajudo uma tormenta delirante
com meu ritmo no tolo tédio
alucinante do capenga
celebre, seja leve eu te assisto
dance a vida e compro o livro
seja a ginga sem vacilo
do crioulo ame, seja feliz
muito doido mesmo que seja
do meu samba. ainda mesmo
Como ? Ora, por um triz.
Ode à Família
Família
útero eterno
cama, chão e teto
onde ninguém é demais
e todos são alguém.
Família,
leite e mãe fraternos
pai e pão severos.
Não é tudo
mas é um todo em si mesmo.
Não é nada
mas como é bom amá-la.
Mãe
Mãe Ternura
Apaixonada
pelo rebento que pariu
pela criança que educou
pelo homem que esculpiu.
Mãe Natureza
Eternizada
no lado oculto da lua
na imensidão do oceano
na floração da primavera.
Mãe Amada
Idolatrada
na música que jorra
na dança que sublima
nos versos do poeta.
Presença que nutre, que alegra,
que consola, que revela.
Mãe menina, Mãe senhora,
Abençoada seja sempre a sua hora.
Pai
Se te mato é porque quero
seguir sonhando. O homem bom não perdura
se abandona os seus sonhos. Se te amo
é porque quero seguir teu sonho.
Mas meu sonho não te sonha,
tu que um dia me sonhaste
em um futuro brilhante.
Se teu Dó maior
não se afina com meu Lá distante,
como seguir cantando?
Ai meu pai, se te amo, se te mato,
como seguir vivendo?
Os meus sonhos são sagrados.
O meu respeito é imenso.
De dentro deste amor, só te ouso
prometer um único esforço:
por um mundo melhor,
seguir lutando.
Conselho
Cresce, meu filho, e te prepare
que a vida é muito mais que pátria
é ainda mais que arte
e a melhor escolha possível
é ser e deixar ser.
Todos os caminhos conduzem, amigo,
a curva de um só destino
todo nascer provém de um morrer
há que escolher um caminho e seguí-lo
com a força do teu querer.
Saiba que mesmo com tantos a tua volta
o caminho é solitário e assim tu serás
o que não impede que as mãos sejam dadas
e beijos e carícias sejam trocadas
no eterno jogo de dar e receber.
E quando tu não puderes te dar mais
e o teu desespero for demais
levante a cabeça e dê uma sonora gargalhada
pois não passa de uma grande piada
tudo isto a que chamamos viver.
Édipo Total
Da minha mãe, a capacidade para amar.
Do meu pai, a facilidade em perdoar.
Da esposa, a comunhão com a natureza.
Do meu filho, a vontade de ser.
Do amigo, a necessidade de compreender.
De mim, a força para viver.
Da minha mãe, a comunhão com a natureza.
Do meu pai, a necessidade de compreender.
Da esposa, a capacidade para amar.
Do meu filho, a força para viver.
Do amigo, a facilidade em perdoar.
De mim, a vontade de ser.
Árvore do Amor
O vento, enfim, a derrubou,
a sólida e orgulhosa árvore do amor.
E nem se pode dizer que muito tentou
pois a brisa e a calmaria sempre predominaram
impostas pela majestosa serenidade
que emanava desde as profundas raízes
até o mais ousado dos seus galhos.
Mas eis que numa rajada de ódio
(ah, como é ilusório o nosso poder)
tudo aquilo que era vida vertical
tradição, costume e moral
num mísero segundo desmoronou
e, sobrepondo-se ao sol, fez-se a dor.
Que chova então em nossas almas,
que o inverno gele nossos corações
e o outono espalhe novas sementes
que serão outras e será a mesma
sólida e orgulhosa árvore do amor.
Andarilho
Amar a vida
expandi-la infinita
como o sol que alumia
com o vigor do meio-dia;
e na noite mais escura
as estrelas brilham puras
convidando o andarilho
à novas aventuras.
Pela estrada ele esquece
que segue, mas segue
sonhando seu rumo
sem prumo
e pleno admira
o gesto incontido
do coração expandido.
Viajante
falo
gago
errante
pasmo
ajo
viajante
traço
passo
flamejante
sigo
amigo
amadoamante
Tribos Urbanas
Hippies, darks, funks,
rasteando o lixo urbano;
Yuppies, rastas, punks,
farejando o sangue humano.
Idênticos a si mesmos
mas distantes do próprio umbigo;
mendigos do olhar vizinho,
fingindo estarem alheios.
Compram fiado, vendem dobrado
amam a virtude, odeiam o pecado
cantam afinados, dançam alongados.
Reflexos de tudo o que já foi
projetados na vontade de alcançar
o que será, Chico, que será?
Porto
Rio Douro, ó Porto e seus tesouros
doces vinhos, mil sabores de amores
embalados por seu passo vagaroso
de preguiça assumida, de antiga,
de sabida, de gaivota no pesqueiro
em busca de comida; de boêmio
adormecido nos braços da querida,
musa-lusa da Ribeira, esquecida
por Pessoa mas cantada em versos outros
de um gajo aventureiro, brasileiro numa boa.
Ó Porto, quem navegou por tuas cavas
e não se perdeu nos teus fados
não naufragará em sonhos,
é pena, pois jamais encontrará
aqueles que levam, caprichosos,
a teus tesouros misteriosos.
Canto a Itaquá
Lá onde o mar perfuma a existência
meu corpo se enrosca em ondas perenes
bailarinas de flutuante elegância;
de pedra a pedra vagueio a tua costa
pisando de leve tua branca pele
de ninfa amorosa, cálida e sensual.
És o prazer genial e o principal lazer
de tantos irmãos, do aqui e agora,
dos que foram e que virão: musa imortal.
Ah, Itaquá, amante mendiga
de corpos morenos, sedentos de luz,
não poderíamos jamais te condenar
por seres assim, volúvel e provocativa
pois em ti se harmonizam, tônicos,
a vida, o sol e o mar.
Neste Mundo
Há de tudo, neste mundo!
E, antes, muito e juntos
do que pouco ou justo,
mesmo que confuso,
endividado, engarrafado
e perdido entre mentes obtusas
ofuscando luzes,
erguendo cruzes
por aí e nós aqui,
muito fulos por motivos
quase nulos, abismados
com a grandeza de existir.
Neste mundo, há de tudo,
e ainda há muito para ver
entre mil toques de ternura,
tanta coisa pra saber
no dicionário da cultura
mesmo que venha a esquecer
vale o prazer
e eu quero mais esta loucura
de jogar até ganhar
de procurar até achar
e me perder e me abrir bem junto a ti
e nada me fará desistir!
Estrangeiro
Depois de tantas viagens
retorno a minha cidade natal
e permaneço sendo um estrangeiro
mesmo nas praias do meu litoral.
Nossos verbos são os mesmos
mas a linguagem não mais se assemelha;
cumprimento as pessoas com alegria
mas os diálogos são recheados de falsetes.
Sinto-me um estranho passageiro
em um trem de destino ignorado
repleto de maniqueistas faceiros
manobrado por um maquinista endeusado.
Longa trilha, esta vida...
mas se minha difícil sina
é ser um estrangeiro contínuo
em qualquer lugar que caminhe,
então melhor sê-lo por aqui,
onde nasci, cresci e me perdi,
pois serei, não sendo, enquanto
formos todos, não indo.
Labirinto
Meu coração caminha livre, solto,
envolto nas asas da liberdade
mas uma profunda melancolia
o acompanha, embalada, pelas veredas da soledade.
As voltas deste labirinto formam um trânsito tumultuado,
trânsito louco, mas desengarrafado,
fluído e descompromissado
pois não necessita ser justificado.
O poeta atura o burguês, o burguês admira o poeta.
Amigos são e, apesar da disparidade,
conseguem viver quase pacificamente:
quando um cobra o outro sobra,
quando um canta o outro paga.
E assim o labirinto vai girando
e uma espiral vai se formando,
expandindo a sua vontade.
Vislumbro o núcleo, muitas vezes mareado,
pois uma ansiedade me invade:
desejo a liberdade e a comunhão entre o direito e o avesso,
a estátua e o suingue, a donzela e o machão.
Caetaneando contra o vento, esqueço meu lenço
e meus documentos são roubados
(o dinheiro já havia acabado).
Solteiro, casado ou divorciado,
serei sempre namorado, ardendo ao acaso.
Tomo coca-cola, como arroz integral,
devoro um BigMac e bebo mate
na mais pura mistura
pós-natura e pré- vanguarda.
Na televisão, na rua ou no teatro,
aonde eu dançar meu ego agradece
envaidecido pelo seu aplauso.
Viajo em naves tele-espaciais
e transo telepatia quando estou apaixonado.
Corpo, mente, alma,
busco sempre o positivo
mesmo naquilo em que ninguém mais acredite.
O mistério para mim é um Deus
assim também como o são
a beleza, a justiça e a verdade
e mais Deus ainda é a minha fé inabalada
pois eu nunca acredito em nada!
Lembranças
O chão é rosa, a copa é frondosa,
o sabor é doce, o fruto é roxo,
o ônibus passa, a lembrança fica,
a infância estica e a cabeça gira
na direção perdida da imagem rica
que ficou, do pé de jambo que passou
e eu lá, trepado, amarrado no sabor
que me vem agora à boca
quando paro no sinal
ou será que engarrafou?
que calor!
a buzina me desperta, fico alerta
suspiro fundo, mas não muito
que a fumaça já é muita
e não para de aumentar
que droga!
toda esta poluição logo agora
bem na hora de lembrar...
Tudo é verso, é certo,
inclusive o reverso
e é disto que vive
meu compadre, o homem moderno,
erecto, orgulhoso no seu terno
italiano, importado,
ora, que importa! o importante
é que algo fique na memória,
mãe da história
que um dia eu vou contar
na esquina de outra vida
que outras vidas, enfim, vão perpetuar.
Não, não é minha culpa
se a música que toca
abre todas as comportas
e o sentido adormecido,
de repente, faz sentido,
trazendo uma enxurrada de emoções,
formando novas melodias,
compondo antigas canções.
Quem diria, comia mariscos
em Madri e sentia na boca
aquele gostinho salgado
de soca na Itapuca,
a praia da pedra maluca
onde o surf era a ordem,
a onda era a conquista
e a lei era impulsiva:
“antes de mais nada,
tudo é possível!”
E é impossível esquecer
se você não se perder
no requinte da automatização
pois a memória emocional
não cabe na programação
de um computador de dados,
dardos no espaço, passos
apressados em várias direções,
botões apertados, brinquedos quebrados
por mãos estabanadas, bolinha
de gude na praça, futebol
de botão com meu irmão,
o time da escola, a mãe preta da casa,
a vaca malhada que pegava
e eu suava pra escapar
sem sofrer um arranhão
na cerca de arame farpado
que cercava o curral da imaginação:
bolhas, bolhas, muitas bolhas
de sabão, são lembranças
que se desfazem
como brincadeiras de crianças
na palma da minha mão.
Sábado
A noite ainda respira e, assustada,
vislumbra o jovem que, inquieto, clama
e pinta a fada e acende a chama
da movimentada madrugada.
Retiro tudo o que é meu,
que a duras penas me pertence,
potente ainda e tanto mesmo
que me ponho a escrever
tudo o que acabara de ler
na vida que pulsava a mil
em cada bar, em cada pub,
em cada mero olhar furtivo
que cruzava o meu, calado,
embriagado pela morte azul da lua
assassinada pela falta de atenção
de estressados namorados
que espremidos em boates
se esfregavam ao som do rap
adormecendo o coração,
afogando a dor no sábado.
Ai, meu sábado, quanto estrago
já sofri, bêbado por vergonha
de quantas festas já fugi
quando as brigas começavam
garrafas quebradas, punhos cerrados,
amigos esmurrados
e eu nem havia beijado
aquela doce criatura,
pura, recentemente conquistada.
Ai, meu desejo, quantos beijos
já te dei e tu ainda me sorri,
chega de mansinho,
me afaga com carinho,
me chama de menino
e eu com 30 não aprendi
a recusar os teus anseios
disfarçado por meneios.
Ai, meu desejo, frágil espelho,
na falta de tudo, te culpo,
no beijo da aranha, me assanho,
no calor do humano, te amo,
e tua boca carmesim
saca a língua, me envolve,
e eu não luto, me entrego,
e acabo louco, ortodoxo
sendo o rei do paradoxo.
Ai, meu sábado, quanta saudade,
e se hoje do meu canto
vivo tranqüilo a espreitá-lo
é porque faz parte de um passado
juvenil, irresponsável. Energia
transformada em versos tristes:
Poesia.
Divagações
Pergunto...
Quantas situações criaremos com nossos
atos e ambições?
E quantas outras criarão em nós
desejos e ilusões?
Hoje estou tão poeta
amanhã, quiçá, burguês.
Quando não estou pensando
assisto a televisão,
mesmo estando desligada
reflete aquele que não vê,
mesmo sendo desligado,
nunca deixo de comer!
E eis que então se arma o pranto
e tudo o mais se torna canto
e coro e voz e corpo e dança.
Poder...
Não mais do que tudo poder
antes nunca do que a tarde caia,
logo quando venha a saber
tantas coisas infundadas
que os mais loucos batam palmas,
a mais casta tire a saia
e o mundo exploda de prazer!
Amada...
Que faz todo o universo
presente em meu ser.
E o que faz meu todo
quando sente este prazer?
Orgasmos,
mansos, suaves, deliciosos orgasmos,
quando vaga-lumes impunes
brilham todos de uma vez
e a floresta resplandece e pulsa nua
ninfeta louca, puta e crua!
Desculpais...
Me assustam tantas coisas,
tantos anos, tantos homens,
tão sozinhos, tão mesquinhos,
tão capazes que nem sei,
que nem mesmo saberei
e assim mesmo julgarei:
Inocente, borboleta esvoaçante.
Culpada, cascavel rastejante.
Perdoada, amada amadamante.
Condenada, a falsa extravagante.
Quem, quiçá, que sou?
Lá, não há, estou!
É tudo ou nada,
é plunc e plou!
Silêncio...
Apenas a voz do santo
canta a vez e a esperança
a quem aguarda solitário,
entre nuvens carregadas,
os presentes de um passado
inquisitivo, fugitivo,
e, ademais, calado.
É verdade, não se cansa o palhaço,
não se ouve o estardalhaço,
não se sabe nunca nada,
que salada!
perdido entre os espaços,
armado de ternura e estupor,
bendita seja a voz do sonhador!
Bispo do Rosário
Vestido com seu manto bordado
com desenhos e inscrições nascidos
de sua vibrante imaginação festiva,
lá vai Bispo do Rosário,
em seu reluzente navio-fantasma,
pirata dos porões da mente,
saqueando o inconsciente
para extrair o sumo onírico
com que compõe sua obra artesanal.
Lá vai ele, visionário,
navegando sonhos pelas costas
de um país demente
que jamais lhe deu a frente,
combatendo bravamente
o destemido inimigo racional,
destruidor do seu adorado caos.
Francisco
Francisco... ah, meu Chico!
Perdoe tanta intimidade
mas ela é o doce fruto
de uma admiração profunda,
de uma abnegação comum
e de um amor que nos une
nos amplos campos de lírios,
no singelo cantar dos passarinhos,
nas misteriosas florestas do espírito!
Ah, meu Chico, quantas lágrimas
você me fará ainda derramar
neste solo tão cheio de injustiças
com o exemplo santo de uma vida limpa
lavando a alma mais encardida
como a chuva fina que germina,
incondicionalmente, novas formas de vida
coloridas pela sua rica mensagem
de dar e amar, de paz e bem.
Ah, meu Chico, como é bom estar contigo!
Cristo
Ò Cristo das mãos retorcidas!
Te olho de baixo
e admiro teus pés limpos.
Ò Cristo das costelas expostas!
Te sinto comigo
na solidão do meu umbigo.
Ò Cristo do sexo escondido!
Te renego com a força
do meu sexo assumido.
Ò Cristo dos braços abertos!
Te abro meus braços
e com carinho te abraço.
Ò Cristo de explosivo plexo solar!
Te acompanho na dança
que balança e faz pensar.
Ò Cristo da voz profunda!
Te escuto com atenção
e minha respiração se aprofunda.
Ò Cristo da cabeça erguida!
Te venero na verdade
da lição do compromisso.
Daime
Fecho os olhos e um outro mundo transparece
multicolorido, multifacetado, multidimensionado
como um caleidoscópio assombrado
onde a coragem é o anjo alado
e o medo, o chifrudo diabo;
como um túnel do tempo sem tempo
onde o real cede ao ilusório
e o sonho se torna a morada,
habitada por seres abstratos
que pressinto por entre as cores e formas reflexas
nas profundezas do inconsciente desnudo
dito sombrio, mas visto belo e complexo.
Abro os olhos e a fogueira reaparece
ardente, chamejante, caliente,
cercada por seres animados
semelhantes a mim no formato,
semelhantes a Deus, como o resto,
cada qual obcecado com sua viagem.
Me sinto de todo apaixonado,
por todos os seres e a aura que os envolve,
é a vida pulsando em harmonia
em cada átomo, em cada ato,
é o amor a tudo o que é vivo,
o que me ensina a morte diária.
Liberdade
Liberdade, ó pátria amada,
onde os braços executam, árduas,
as leis que os doutos traçam
e pernas bambas me sustentam
quando o peso da existência grávida,
sem piedade, me desgasta
ou me atira em abismos imaginários
fecundos por minha própria ociosidade
alternando momentos de paz iluminada
e luta muda, desregrada,
com amigos e inimigos que penso conhecer
quando navego à deriva
na falsa lucidez das certezas óbvias
que a razão insiste em conceber
quando pressente o sofrimento
e inclusive mesmo o prazer
multiplicados por esta a quem confio
os esforços de uma vida eternizada
sempre pátria, sempre amada,
ó toda liberdade!
Hino ao Grito
Indignado, o homem não pode calar seu grito
pois esta omissão fará encolher o seu espírito.
A luta pelo direito é um dever para consigo
e a essência do direito está no grito.
Pior do que ter um direito infringido
é aceitar passivamente a ofensa sofrida.
Portanto, não sufoque jamais o seu grito:
seja o rugido instintivo, enfurecido do animal,
seja a sábia palavra, asa e arma racional,
solte, homem, o seu grito,
grito calado é sangue estancado
gangrenando o coração,
corroendo cada passo dado
na direção incomensurável
da expansão da liberdade.
Tudo está marrom
Jaz no chão com o corpo disforme
o corpo retorcido de cor marrom
do garoto pequenino de aspecto franzino
que caiu furado, Deus sabe por quem,
no asfalto manchado mais uma vez
pelo sangue nosso de cada dia
que, dia após dia, aumenta e forma um rio
de miséria, ignorância e revolta
onde bóiam os ricos e os políticos
enjaulados nas barras do medo opressivo
todos, todos, rumo ao mesmo destino.
Ò Pai, tudo está marrom!
Que caiam os corpos, se devem cair,
mas não assim, não furados;
que caiam cansados, estafados,
após uma vida de árduo trabalho;
que caiam doentes, acidentados,
na fraqueza e no desespero da carne;
mas que caiam, sobretudo, com dignidade.
A vida vale, você sabe,
muito e tanto, que tudo
que fizermos para preservá-la,
enaltecê-la e honrá-la,
será pouco, será nada
se não for soberana a vontade
de que atinja a todos
indiscriminadamente, como um raio,
do menos favorecido favelado
ao mais abastado milionário.
Vala Coletiva
Um buraco fundo cavado na terra sombria
ao lado de outro buraco e outro e muitos,
todos juntos formando uma imensa vala coletiva
onde foram largados, onde são jogados,
onde serão enterradas as carnes já frias
das vítimas de mais uma monstruosa chacina.
Um povo desesperado agoniza, impotente,
nas mãos de uma polícia enlouquecida,
doente, carrascos de um governo inoperante.
Sem-terra, sem-comida, sem-saúde, sem-emprego,
somos cem milhões de desprovidos
prontos para as próximas chacinas.
Quanta barbárie caberá ainda neste Brasil
que quer ser rico mas é apenas mesquinho,
que finge ser grande quando grande é a sombra
das lágrimas dos que velam suas valas?
Quantas valas serão cavadas na sala de visitas
no horário mais nobre da telinha colorida
enquanto escondemos nossa cara envergonhada
sob um prato quente de comida?
Dinheiro
Vejo mansões grandiosas
em lugares privilegiados
mas, que vazias!
suas piscinas e sacadas.
Vejo salões decorados
e pisos deslizantes
mas, que pena!
nenhum casal está dançando.
O ar é limpíssimo
o astral é altíssimo
mas, que triste!
não há ninguém sorrindo.
Eu sei, o dinheiro ajuda muito
e compra mesmo quase tudo
(desde amantes esfuziantes
a drogas alucinantes)
mas, qual o preço do dinheiro?
E se pesarmos na balança
com o valor da própria vida?
Quando é ganho com suor,
prazer e honestidade,
vale mais do que a nota indica;
mas quando é fruto do roubo,
da esperteza e da cobiça,
valerá tanto quanto
o que seu corpo gravará?
A perda da amizade,
esta pérola sem a qual
a vida é quase nada.
A inocência embrutecida
pela corrupção e pela hipocrisia.
A falta de alegria
espontânea, sem ajuda da bebida.
E um peito tão fechado
por um sentir tão encubado
que o amor fica enrugado.
Valerá, pergunto só por perguntar,
valerá o preço a se pagar?
O povo quer saber
O povo quer saber
por que vive na miséria
quando outros,
muito poucos,
desfrutam mordomias
e se concedem regalias.
O povo quer saber
por que a lei é dura
apenas para os duros
enquanto os ricos podem tudo
pois há sempre mil recursos.
O povo quer saber
por que o Estado é tão rico
e o serviço público tão fajuto.
O povo quer saber
mas não querem que o povo saiba
porque é na ignorância do povo
que reside a força
daqueles que detêm o poder.
Grades
Perdoem as grades,
inimigas da liberdade,
mas protegem nossas vidas
e já se incorporaram à paisagem.
Estão por todas as partes:
nas janelas, nos portões,
nas entradas, nas saídas,
sempre duras, sempre frias,
sempre barras divisórias
fixadas na memória.
Nós que gostamos de enjaular
passarinhos e animais
enjaulamo-nos também
mais e mais.
Será uma lição da vida,
a moral da história
ou apenas gosto pessoal?
Vivemos acossados
com medo do próximo
que nada tem
quando temos mesa farta
e passamos tão bem.
Nos trancafiamos
com nossa família e nossos bens
e entregamos a chave
nas mãos de um destino
que não fará justiça com ninguém
porque justo não é apenas
punir o pobre que rouba
quando deveria trabalhar,
é punir com rigor o rico ladrão
que com sua ganância
aumenta a miséria do povão,
mas estamos tão distantes
desta justiça tão óbvia
que não sei não...
Haverá ferro suficiente
para que cada um tenha
sua própria gaiola?
O Palhaço lá da praça
Estava já cansado e sentou-se ao meu lado
em um banco lá da praça.
Vestia um collant bem colorido,
tinha o nariz, boca e olhos pintados
e comia tranqüilo castanhas e passas.
Eis que acercou-se de nós um menino,
queria um pouco de castanhas e passas
e também falar com o ser raro.
A comunhão foi imediata,
logo ouvia atento às estórias fantásticas
que falavam de gatos, bolas, fadas
e das coisas lá da praça.
Mas, de repente, chegaram seus pais,
o menino não podia incomodar
-que piada- o ócio do palhaço!
Levaram à força o curioso
a um lugar mais afastado
onde reinaria a paz forçada.
Eu, atordoado, chorava.
Pensava no meu filho distante,
na vida em sociedade,
nas estórias do palhaço
e pouco a pouco foi crescendo
no meu peito um sentimento
de revolta contra o medo,
de esperança e fé na vida,
de amor à liberdade!
Realidade Virtual
Visual, o tal
não perde nunca a moral
tem compromisso total
com o tal do capital.
Sempre formal
se pensa especial
por carregar no metal
o seu valor social.
O tal, quando rima, rima mal
tipo racional
altamente fatal
para o poético em geral.
É, sem dúvida, a imagem ideal
ordenada por um banco central
para uma sociedade artificial
baseada na realidade virtual.
Uma Lágrima
Uma lágrima
no canto esquerdo do olho direito.
Uma lágrima pesada,
misturada à maquiagem barata
do palhaço que tentou fazer graça
na exata hora errada,
na hora da banalidade responsável
da coisa séria
que o dever reclama e a razão inflama
e o palhaço sem relógio entrou de gaiato
no sapato da história
sem, ao menos, ter sido respeitado
e saiu, no barato, pisado e humilhado
porque é no circo o lugar deste aloprado
-disseram- assim como o banco é o abrigo
detestável -retrucou ele-
do avesso do engraçado,
do escravo do dinheiro e carrasco dos negócios
que não brinca em serviço, nem fora,
não ri se não for compensatório
e não ama se não for em dólar.
Todos temos uma lágrima no canto escondido
do olho perdido de um corpo ferido
e é com a minha que eu, desnudo,
escrevo o assunto, exorcizo e consumo
o palhaço que assumo.
Existir, seja como Flor
Flor da vida no poder,
pétala suave a comandar
um jardim que de espinhos
está farto e esgotado.
Já não cheiram tuas esquinas
a acácias, lírios, dálias,
não se tocam as extremidades
com doçura e amabilidade.
Sua cor agora é uma
cor sem brilho e desbotada,
arco-íris sem o íris,
sem tesouros a encontrar.
Flor da vida, minha dança,
faça tu agora as contas,
distribua aos quatro cantos
teu amor, tua esperança.
Apazigúe teus espinhos,
deixe a abelha trabalhar,
o mel vai ser tão puro
e ainda vai sobrar.
E quando chegue o beija-flor
beije a vida, abrace o ar,
a água vem do céu, vem gratuita
como a clara luz solar.
Flor da vida, altiva flor,
teu poder está na pétala
abra os braços, maravilha,
assuma já teu esplendor.
Ainda prezo mais minha consciência
que a minha loucura!
Quem faria um lustre de uma cabaça rachada
e escreveria o próprio nome na cabeça raspada?
Quem viveria “legal” sem usar de drogas
e se drogaria numa igreja usando coroas e fardas?
Quem se masturbaria num palco vestido de fauno
e esbofetearia um amigo por ter maltratado um cavalo?
Quem em meio a tortura e a morte insistiria com a verdade
e beberia cicuta com toda boa vontade?
Quem cavaria um túnel pelo simples prazer da labuta
e cortaria fora a orelha pelo amor de uma puta?
Um dia os loucos me convidaram para uma grande festa
e com danças e contos de outro mundo,
me seduziram e me encantaram.
Embriaguei-me uma lua inteira com o néctar
da beleza e da verdade;
desperto na nova, encontrei-me sozinho e abandonado
com a loucura herdada
e com o sangue que me restava na veia
amaldiçoei a todos estes desgarrados
piratas d’alma alheia.
Mas a tarde era tal que o sol como que me dizia
qu’eu deveria acompanhá-lo.
Lancei-me então à vida como se fosse a lida
a minha única saída
e tracei com este impulso as linhas onde comporia
minha sina, minha dança, meu recado, minha vida.
Drogas
Na onda da lucidez
eu sou rei e mais sei
sobre mim e coisas afins
assim meio serafim.
Viajar é preciso
mas é nas asas da pureza
que eu me realizo
e me integro à natureza.
Antes a inocência dos sentidos
que uma loucura sem sentido
pois se a consciência é um barato
o preço do vício é muito caro.
E, depois, não vai ser a alucinação
de uma droga corrosiva
que vai dar asas à imaginação
de um viciado sem amor à vida.
Ato Fálico
Não escrevo para os intelectuais
porque os perco
sempre que buscam rebuscamentos
nas linhas simples e concisas
por onde flui meu pensamento.
Não escrevo para os bailarinos
porque não costumam ler
ocupados que estão com os pés
pontados, barrigas e nucas enxutas,
vítimas de uma estética dietética.
Não escrevo para os poetas
porque não tem olhos
que não sejam para a própria poesia
egocentrados na hipersensibilidade,
obcecados por suas sombras solitárias.
Não escrevo para os amigos
porque já me conhecem,
aprenderam a ler nos meus olhos,
a decifrar meus silêncios
e a comer no mesmo prato.
Não escrevo para a posteridade
porque não acredito mesmo
que exista tal coisa
que não seja para consolar a vaidade
inconformada de um presente frustrado.
Não escrevo nem mesmo para mim
porque não suporto ver-me duas vezes
e cada vez que me revejo
espelhado nos meus versos
tenho uma vontade louca de correr.
Por que diabos escreves então?
perguntarão os ignorantes,
meus irmãos de consciência,
que me instigam com sua audácia
a dar o melhor de mim.
Não escrevo para nada
porque o tudo é a mão
que me move, leve pluma
do desejo, desvendada
neste fálico mistério.
Sem Destino
Não escreverei mais, pouco me importa!
Nem mesmo aprecio os grandes poetas,
apenas algumas linhas mesquinhas
me acompanham na minha mandinga
mas, uma antologia? que agonia!
decifrar polidamente
os enigmas destas poderosas mentes
que despejam palavras
numa enxurrada de metáforas
e citações eruditas que espelham
uma memória prodigiosa
de computador último tipo.
Vai estudar, menino,
coloque-se no seu lugar!
Ai, meu pai que mora em mim
e que nunca se cala
porque eu nunca estou onde deveria estar,
porque eu nunca sei onde gostaria de estar.
Vai estudar, menino,
ou faz algo que te dê algum dinheiro
porque de menino já te basta o teu filho
que tu tens para educar.
Ai, meu pai que mora em mim,
dono da minha vergonha, que me põe no meu lugar,
um lugar no mundo do respeito, sem despeito,
das regras restritas da sociedade, sem maldade,
um sujeito amigável! um artista respeitável!
que bonito, e ganhar um prêmio qualquer,
doá-lo a uma instituição de caridade
e voltar para casa orgulhoso
com a vaidade lavada e enxugada
pelo elogio alheio -a puta vaidade!-
esta grande cúmplice do poder, colorido ou enegrecido
que fala pela boca gulosa do meu pai fora de mim:
vai trabalhar vagabundo!
que não passas de um preguiçoso
metido a poeta, este trágico,
e ainda por cima bailarino, este menino,
sem diploma, sem destino... que destino?
se no futuro estaremos todos lindos,
engomados, engravatados no túmulo do mundo!
Utopia
Na minha poesia o dinheiro não pinta.
Pintam umas meninas, pintam ricas aventuras
mas o papel moeda não pinta.
Não pinta a casa própria,
não pinta um carro do ano,
não tenho nem conta no banco.
Eu canto, eu danço,
eu sapateio, eu esperneio,
a cabeça está sempre cheia de idéias
mas o bolso está sempre vazio.
Por mais que eu pinte, a grana não pinta.
Eu não sou consumista, não sou elitista
mas também não sou masoquista
e sem grana no bolso
a coisa fica difícil,
fica ruim tocar a vida
no compasso desta utopia.
O sonho não acabou
Não, você não está sozinha,
o sonho não acabou!
Talvez tenha apenas mudado,
aliás, como tudo o mais.
Para uns, nem isto,
sonho de cristal.
Para outros, é o fim da história,
tipo radical.
Para mim, apenas mudou,
permanecendo o essencial
que, entre outras coisas,
consiste no próprio sonhar.
Afinal, sempre haverá
desejos desejando
e algo a melhorar.
Sim, estamos juntos
e nosso dia vai chegar!
Mediante
Mediante o que faço
meu ato se torna fato
e, visto que arrisco,
a cada passo
beiro o abismo.
Mediante o que penso
meu senso se torna imenso
e, visto que sou louco,
meu pensamento todo
é um pouco obsceno.
Mediante o que calo
minha dor se torna mágoa
e, visto que sou burro,
a cada emoção,
fico mais mudo.
Mediante a situação
meu ser pode não ser
e, visto que sou único,
sou quando não
minto que sou muitos.
Touro Calado
O touro descansa à sombra da mangueira.
Rumina idéias.
Já fecundou algumas vacas,
o pasto é vasto
e agora se sente entediado.
Aquele garoto virá de novo molestá-lo
mas ele não lhe fará caso.
O vermelho tem vários matizes,
o toreo é um jogo arriscado
e o toreiro um grande safado.
Prefere as vacas.
Rumina o pasto.
Já fecundou algumas idéias,
o touro calado.
Ludismo
Sou lento,
a poesia
é meu único
tempo.
Mas mantenho
a mente lúdica
sempre dançando
no ritmo da música.
Essência
Há uma ciência na essência
que transcende a incumbência.
Não a quantidade que cansa
mas a qualidade que expande.
Esta é a minha crença.
Poesia de poucos adjetivos,
de sujeitos objetivos
e desejos substantivos.
Este é o meu sentido.
Comunhão
Uma prece antiga toma forma
no corpo de um pássaro raro
que observa os séculos passados
com impassível sobriedade.
O que rezam todas as preces?
O que cantam todos os pássaros?
Na arte de uma caligrafia mágica
o mistério de um povo sábio
é traduzido com a majestade
de uma leve mão abençoada.
Aonde levam todas as artes?
Aonde moram todos os povos?
Os corações que se unem
no bater das asas dos pássaros
sabem que as preces dos povos
comungam com o mistério das artes.
Como unir todos os corações?
Como sermos todos sábios?
O Pescador
Na espreita da manhã que se inicia
o pescador, desde sempre, já é a pesca do dia;
fisgado em sua alma pela gigantesca força marinha,
seu reflexo nas ondas calmas das águas claras
é o maior troféu de quem olha de cima e tudo vê
com belos olhos de prisma criador.
No seu barquinho, com seu anzol,
cantando baixinho, o pescador, é o meu herói;
as tardes passam, o sol corrói,
pescando peixinhos, o pescador, sabe que dói
mas come calado e pede perdão
na sua oração, ao Todo Poderoso Salvador
que não salvou ninguém, mas, tudo bem,
pescou mais um coração.
Frases feitas (ou quase)
Há dois sentidos na vida
e um destes, eu te digo,
não faz nenhum sentido.
Vencedor é aquele que,
mesmo perdendo,
não se sente derrotado.
Minha agressividade é metafísica.
Não gosto de agredir,
prefiro transgredir.
Eu sonho acordado,
sonhar dormindo
é para quem dorme acordado.
Se o amor não for o ar que respiramos...
Museu
Na solidão do museu
as obras me olham
e eu reflito
o que em mim
se revelou.
Quadro
(inspirado em pintura de Salvador Dali)
Meu crânio rachado brilha
e reflete a castidade de um céu
densamente tingido
por um longo azul angustiado.
Às minhas costas, altas escarpas,
oprimem o que foi em mim,
em ti, em todos os sozinhos,
sonhos de aventuras e carinhos.
Minha face inclinada projeta,
desolada, uma sombra abandonada
que me protege e descolore
a árvore maciça que sangra,
copiosa, sobre o peito inchado
com raízes que são como veias
ramificadas infinitamente
por mil sentidos cientes
de não saberem quase nada.
Sob o peito, inescrupulosamente,
uma porta se abre
sem uma tênue luz que a ilumine
talvez porque ali não haja
nada semelhante ao raciocínio,
apenas o espectro de uma intuição
que nunca fez muito sentido
mas é por esta porta que eu respiro
o ar denso e clandestino
que permeia o espaço entre a moldura
impregnado por uma latente loucura.
O Pensador
(inspirado na escultura de A. Rodin)
Carregado de uma inefável força reflexiva
que absorve todo pensamento que gravita
alimentando seu espírito com a proteína
que extrai da sabedoria implícita
em cada molécula organizada que vibra
na poderosa dança da vida viva
o Pensador, não obstante, imóvel, sublima
todo o movimento que a vontade excita
condensando no vigor do bronze o estigma
de potência que o pensamento anima
capaz de fazer do homem uma obra-prima.
Blues
No dedilhar colorido das cordas de aço
a teimosa alegria que, disfarçadamente,
sorri, ensinando que o prazer é forte
e resiste a um passado martirizante.
No choro melodioso da gaita de boca
a inexorável alegria que, acumulada,
cruza os ares em ondas crescentes
penetrando sutilmente na mente alertada.
No cantar louco de uma voz rouca
o sentimento mais profundo, qual for,
ganha eco na garganta do mundo
e reverbera nos corações plenos de amor.
Na cadência que aprisiona o tempo no tempo,
a marcha de uma gente que, escravizada,
dançou sobre a terra apodrecida
transformando lama em terra fertilizada.
Nas letras que narram a saga sofrida,
a simplicidade repleta de beleza
de quem se alimenta da raiz fincada
no solo distante da pátria-mãe natureza.
Água Escondida
No fundo do poço mais fundo do mundo
onde impera perene o doloroso desgosto
da estéril incomunicabilidade dos pilares
virtuosos de muitas horas minhas dedicadas
as agruras, umas da dança, outras da poesia.
Apenas lá, na mais serena harmonia,
resplandece, lúcida e sublime, a música,
fluindo misteriosa não se sabe de onde
unindo dança e poesia num abraço melífluo.
Do alto deste imponderável desvario,
com o olhar vago, perdido neste abismo,
respiro fundo, condensando meu impulso
pois só me resta esta alternativa suicida:
atirar-me neste poço profundo, translúcido,
para beber desta melodiosa água escondida.
Oh, louco!
A passos lassos
percorro calçadas
sob o olhar opaco
das múltiplas janelas
dos prédios altos,
imponentes guardiães do asfalto.
No centro de uma metrópole agonizante
cruzo tantas vezes com tantos outros
que entre ternos e gravatas
me esqueço como outrora
fui um outro
bicho solto
dançando entre poucos
namorando borboletas
Oh, louco!
Ontem? Ou hoje?
Quem sabe apenas amanhã
quando, em dissonantes fraternais,
harmonizar meus animais.
Anistia
Poesia ia, ia, ia, mas não foi.
Alegria ria, ria, ria, mas chorou.
Quem não cria, chia.
Poesia é anistia.
Quem não foi, nunca voltou.
Adeus
Adeus, fico só,
pó da terra, grão de areia,
estrela já sem brilho,
gota d’água que não pinga.
Adeus, não tenha dó,
sou assim, menino,
invento jogos impossíveis,
faço coisas escondidas
que você não adivinha.
Adeus, mais uma vez,
apenas faço um exercício
pra passar o tempo amigo
pois a noite só engatinha
e eu me sinto assim... espinho.
Não, não pense mal,
melhor mesmo nem pensar,
descansa, relaxa seus miolos
e se for capaz... suspira.
Isso, com mais prazer,
e sinta como aos poucos,
assim como quem não quer nada,
vou penetrando em você!
Se assustou, hem?
Não foi nada, no fundo
não tão fundo da moral,
eu só queria te conhecer.
Oração Final
Peço aos deuses que me olhem
e orem ao meu ouvido
os versos que me vestem
quando, cúmplice desta hora
mais tranqüila,
dispo a máscara do bispo.
Peço aos anjos que me guiem
e iluminem o meu caminho
(tão fadado ao desvio)
quando, chegada a hora
mais imprecisa,
perco o passo em desatino.
Peço aos homens que se amem
e que cresçam como amigos
pois, na hora mais antiga
da triste despedida,
este é o tesouro
que se leva desta vida.
Para o meu melhor amigo, tão antigo
quanto possa alcançar minha lembrança
de uma adolescência já perdida
que nos foi demais de rica. Tão presente
quanto possa expressar meu carinho
a meio caminho de comum amadurecimento
de fruta exposta ao tempo incansável,
implacável monumento. Tão constante
quanto o mar que, ora tranqüilo, ora raivoso,
não se cansa de inundar, potente,
minh’alma sempre carente. Tão eterno
quanto possa durar minha admiração
por tudo que é, que ser é seu poder,
faz, mesmo quando o ato desata,
e representa, ao longo desta estrada:
sinal luminoso e asfalto,
acostamento, abismo e madrugada.
Ao Mestre
Busco, não minto, a tua admiração,
pretensão de quem te admira,
viajando dentro de um coração
que expande quando te mira.
Desejo, não nego, o reconhecimento
pela minha obra de cobra
rastejante pelo conhecimento
que sobra e rola na tua obra.
Aguardo, paciente, o minuto que passa
ciente de que o poderoso tempo
é um velho amigo e comparsa
que unirá na luz nosso pensamento.
Agradeço, desde já, a tua atenção,
por mínima que seja será
sempre com grande gratidão
que recordarei teu generoso olhar.
Prefácio
Dançando no vácuo do mundo,
centrado por falta de assunto,
é no rebuliço das sombras movediças
onde, reflexivo, respiro e me inspiro
sob o olhar protetor dos anéis de Saturno.
Por isto me exponho, de preferência, à luz soturna,
desafiando fantasmas (que são tantos)
em busca de virtudes (que são raras),
agindo muitas vezes como o mendigo
que expõe suas feridas e mazelas
para obter alguns trocados
ou como a puta que vende o seu vício
para preencher a solidão e o prazer
dos senhores da moral e do pudor.
A verdade é que me sinto intranqüilo
ante esta excessiva exposição à luz da escrita.
Gostaria então, nestas linhas, por sedução
de conquistar a sua cumplicidade
antes do pavor de apresentar-me,
a mim, ou a um outro,
apelidado pelos amigos de andarilho,
transformado pelo prazer em dançarino,
inventado e moldado por um poeta
que talvez tenha mesmo existido
ou, quem sabe, tenha sido apenas sonhado
pela imensa noite que se quer estrelada.
Caos
No caos ordenado da loucura racional
somos todos alucinadamente normais
vagando algemados aos vícios profundos
erramos no mundo sem nunca encontrar
o caminho solar das virtudes florais
perdidos que estamos no verbo formal
que foi no início e será no infinito
um tortuoso e magistral labirinto
de versos diversos, frutos do universo
das oníricas sementes selvagens da mente
que, avidamente, a terra absorve
e o homem, reino de idéias, explode
na caótica dança que esculpe a linguagem.
Revolta
Maldito esteja, que seja
este inferno de merda, minha terra ferida
vulcão que acumula e ejacula
dinheiro podre sobre a cidade partida,
corroída pela miséria indecente
da desgraça que arregaça
a cabeça deste povo, pau oco
sem troco, a pedir esmolas
numa hora que não cola, só esfola
e agora? e agora?
Foda-se, deixem-me em paz
qu’eu não sou capaz
de tragar tanta mesquinharia.
Senhor, dê-lhes a outra face,
fresca como uma alface,
que se lambuzem os beiços
em beijos tesos de desejo
e cuspam o catarro azedo
do meu peito no teu leito
sem defeito, um grande peido
é o que respiro num suspiro
quando rondo o teu beco
a separar o que está misto,
isto! meu prazer é catar lixo,
porco escrito, mal descrito,
lazer de um poeta fudido,
fundido na imundície
da fumaça no céu, da sujeira no mar,
aturdido, grunhindo ao luar:
Foda-se! que me importa
a horta desta horda
de corruptos escondidos
sob a barba de políticos
amamentados por indecentes
burocratas impotentes
sai pururuca, sai de mim!
Vai de costas a sonegar,
a especular antes do fim
do dia do último juízo
apocalíptico final
qu’eu não verei em paz
porque eu tô fora,
tô fudido mas tô fora
desta amarga arca estatal
que não afunda, não nada,
apenas bóia, na onda da história
de um país analfabeto, mas esperto,
muito, muito, muito esperto,
e pra quem não vê
e não aprendeu no abc,
o cú deste Brasil canalha
fica na baía da Guanabara
e nós - pobre de nós -
nos deliciamos inconscientes
nadando na própria merda!
Turbilhão
Clara, clareia, avança turbilhão
tateio corpos no escuro, busco a mão de um irmão.
Negra estrela no céu do meu vulcão,
escrevo versos na areia, penso sempre em contramão.
O que dito não foi dito, o que me vem também se vai,
eu me canso a toda hora, eu me calo pra escutar
a voz do tempo quando passa passeando sem passar.
Todo dia é dia de ficar e d’ir embora,
a barca cruza a baía, meu pensamento é um mar,
vejo como ele se agita como ondas sem parar.
Danço a dança das marés, deixo o vento me guiar.
Solto os nós, libero a libélula,
pinto suas asas, deixo-a voar,
pro céu todos vamos de carona quando a festa terminar.
Eu não vou passar a vida sem sorrir e sem gozar
preciso me amar, preciso me amar,
antes de mais nada eu preciso me amar.
Fuga
Tenho estado perdido entre danças
indeciso entre viver ou sonhar
as vezes temo pela minha segurança
as vezes temo não gozar
a vida viva a mim se apresenta
e eu, burro! tento decifrá-la
como que me enganando
que será possível
escapar de senti-la,
que será possível
a cada dia desmenti-la
como se eu não soubesse
que não há escapatória
que a história é incisiva
e que a minha covardia
um dia, ai de mim,
terá que ser vencida!
A Porca
Veneno,
como é doce o teu tormento
e te ver chorar é como um êxtase
para o meu instrumento
que te acena
nova mente
tu te inventas
e eu te moldo
ao mesmo tempo
com a total fúria
do meu excremento.
Veneno,
em cada grito ecoa
uma dor suprema,
em cada dança surge
um turvo movimento
assassino
tu enforcaste a morte,
tu engoliste o tempo
e cuspiste mais uma vez
a tua glória imensa
sobre a porca inveja
que corrói minhas entranhas
como ácido escaldante
ela, justo ela,
fonte inesgotável
deste manancial sangrento
de puro veneno!
Impotência
Um buraco, no espaço
e dentro deste buraco:
nada! Nem um som,
nem mesmo um átomo
que inicie algum estrago.
Nada! Nem a mínima esperança
ou remota possibilidade
de alguma fecundidade.
No espaço, um buraco
negro tudo, obscuro,
completamente escuro!
Não mais, nem menos
nem pouco, não muito
simplesmente nulo!
Lugar comum, nenhum
perfeito equilíbrio possível
para o meu desequilíbrio.
Apenas nada, o fundo
buraco do meu mundo.
Tristeza
Deixo que ela chegue, ela me invade,
úmida, se faz notar pelos olhos.
Não sei de onde vem
quase nunca sei o porquê
mas ela está sempre aí,
quando vou e quando regresso
vestindo tons escuros, nunca vibrante
mas sempre feminina,
minha menina, tristeza,
te aceito
porque faz parte da minha beleza.
Ímpeto
Mima a rima, poesia
abre o verso, ventania
em direção ao espaço sonhado
nunca dantes navegado,
ímpeto fatal,
aventura, ficção, magia
febre ocidental
perder-se e achar um outro
que pensa estar achando
em um outro a si mesmo,
que loucura, esta cultura
deslumbrada com a fama
dominada pela mídia
alienada pela moda,
afiada espora
do consumo obrigatório,
compra, vende, explora
o trabalho displicente
de uma gente sem presente
negro, índio, cigano,
te amo, alma e avesso
do macaco escravo branco
trancado no escritório
ou na fila de um banco
abre a porta burguesia!
há um mundo em cada esquina
um infinito em cada dia
uma morte em cada vida
viva a simples alegria
de uma vida criativa
o poder da simpatia,
rompendo muralhas,
está estampado
onde um gesto espontâneo
ilumina as fachadas,
que fachada, o teu sorriso,
estrelado céu de maio,
não resisto, desmaio,
quando ergues o teu véu
e esparramas puro mel
no tonel de um coração
apaixonado, meu irmão,
que enfado, este descaso
pelo atraso do meu passo
se quem passa não me escapa,
não te capo nem me calo
emburaco neste trato
e, enfim, disparo:
abre a rima, ventania
mima o verso, poesia
que esta viagem é um barato!
Projeto
Observo, obcecado, o vôo alto
da idéia sobre o vasto planalto,
nascida da eclosão de um desejo
que, sem medo, explodiu o teto,
tomou forma e se tornou projeto.
Espreito, consciente, o primeiro ato
desta sinfonia de fatos
orquestrada pela forte vontade
que, com garra, fará deste projeto
uma nova e rara realidade.
Convocarei, então, meu anjo arquiteto,
rico na sua presteza e bondade,
expulsaremos juntos pesados pesadelos,
removeremos o preconceito dos mais velhos
e, sonho a sonho, ergueremos um castelo.
Convidarei, por fim, minha doce namorada,
bela na sua entrega apaixonada,
teceremos com carinho nosso ninho
e, verso a verso, caminharemos
frutificando novos universos.
Metamorfose
a lagarta larga
atrás de si
tudo o que já era
&
uma bela borboleta
se revela
buscando novas eras
Equilibrista
Atravesso vales e rios
montado em cavalos alados, bravios
que me dão carona quando aceno com um sorriso.
Cruzo o céu estrelado fazendo artes e amizades,
a lua cheia é a minha guia,
instiga meu peito, povoa minha cabeça
com verbos floridos e gestos noctívagos.
Meu ser todo é uma metamorfose
que não cessa nunca:
sou amigo do bandido,
bandido sem amigos;
sou poeta dançarino,
funcionário equilibrista.
Entre o zen e a conquista
mantenho-me por sobre o muro
jogando flores para ambos os lados
brincando de viver, sem medo de perder,
vivendo sem saber, nem o como, nem o porquê.
O Dançarino
Ora, de que adianta jogarem pedras no rio
se ele segue firme o seu caminho?
De que adianta gritarem ao rio: “Cuidado! Devagar!”
quando ele vislumbra o mar a sua frente
e ele próprio se sente mar?
Como pode os que correm à margem
gritarem e aconselharem ao rio
se não navegam no seu desvario?
Ora, de que adianta ter os pés firmes no chão
se o chão está sujo e enlameado?
Melhor mesmo não seria voar?
Ou quem sabe apenas dançar?
Eu jamais acreditaria em um dançarino
que tivesse os pés firmes no chão
ele me pareceria muito pesado
(todos estes me parecem muito pesados)
e, afinal, como conseguiria ele saltar?
Portanto, de nada adianta ofender o etéreo dançarino
pois isto lhe dá forças para saltar
e apenas o faz, em pleno salto, chorar!
Dançar a Vida
Não me venham com príncipes, reis ou rainhas
a monarquia é um conto de fadas para criancinhas
e um novo homem velho se lança inteiro
desde um terceiro mundo primeiro.
Nietzsche o descreveu, com letras dançantes,
Nijinsky o dançou, com gestos pensantes
e, como eles, muitos enlouqueceram sucumbidos
a custa de trilhar este caminho
que ele percorre com alegria e determinação
transformando, sem pedir perdão,
palácios com cisnes dourados
em comunidades com borboletas anárquicas,
neuróticas Giseles mumificadas
em radiantes Isadoras apaixonadas,
o vasto passado num presente menos trágico
e o futuro... quem sabe? Talvez
“Dançar a Vida”: viver da Dança, Música e Poesia
buscando na arte ampliar a consciência,
transformando o “sexo, drogas e rock and roll”
em Amor, Trabalho e Sabedoria.
Escola
Danço, assim como respiro
tanto quanto como amo
tanto quanto como existo.
Sigo fielmente uma escola
que é a da dança
assim como a vida me ensina,
que é a da vida
assim como vive a poesia.
Aula
Ver o outro
ouro torto
e lapidar
Ter sentido
mestre amigo
e ampliar
Ser seguro
mesmo escuro
e clarear.
O Outro
Do sono que faz minha cabeça
na noite grisalha do conhecer-me sem fim
desperto, enfim, desvencilhando-me
do reflexo estéril no espelho convexo
que se abre à paisagem virginal
do primeiro abraço matinal
indo além do claustro narciso
do ver somente a mim
para renascer no enigma do outro
que se faz mais que tesouro,
se faz a fonte inesgotável
de um renovador conhecimento
e se faz a ponte por onde,
verso e mistério, desfilam seus encantos.
Trilogia Amorosa
I
Ah, quanta sensualidade transparece
neste pedaço de menina, neste pedaço de mulher,
quanta ternura há nesta sensualidade
e como ela me faz delirar...
Flor altiva de pétalas cativas,
olhos de lince que disparam faíscas,
doçura constante no ar.
Teu cheiro é o de uma fêmea no cio!
Teu ímpeto o de um mar bravio!
Estrela de todas as noites perdidas,
oceano de tantas lágrimas sofridas,
sacerdotisa da deusa Iemanjá.
Te quero cada vez mais!
Te amo como o poeta ao luar!
Madona, amazona, odalisca,
eterna namorada por tantas vidas
nesta aventura sublime que é amar.
II
Tua língua descarada
com sabor de sacanagem
em minha boca escancarada
umedecida por teus lábios!
Teu corpo enlouquecido
pelo calor do meu abraço
amarrado, convulsivo,
sussurrado e descontínuo
agora, é tudo, eu quero e não seguro
a vontade do teu sexo que me invade
rio escuro, sangue tinto,
libidinoso em tal estrago
que não sei mais quanto valho,
meu orgulho é meu caralho,
meu caráter é feito palha,
meu amor... um espantalho,
falho e enrolado,
que me enrosca como a cobra
que me cobra, cascavel,
sentimentos cor de um céu,
vasto, tão vasto
que não sei mais o que sou,
que não sou mais que fusão:
odores, sabores,
tato, imagens, audição,
um animal é o que sou!
III
Quando te vejo, oh minha menina,
me invade um raio de alegria,
meu coração dispara em correria
e o dia mais triste e cinzento
se transforma no mais reluzente,
espelho d’alma límpida e inocente.
Mansamente, porém, a noite se aproxima
e eis que baixa uma neblina
densa como o mais turvo pensamento
impregnado por lúbrico tormento:
tantas são as faces do amor,
tão variado o seu sabor
que de saboreá-lo não me canso,
desejando por todos ser amado
e distribuindo-o, abusado,
como um anjo desvairado.
Ai meus ais, quantos ais
este apetite me traz
pois absurdos preconceitos
recheados por direitos e defeitos
dificultam, infernais,
o que deveria ser aqui, primordial,
ordem primeira e natural.
É... penso cá com meu violão,
talvez não seja para este mundo,
talvez seja para um outro mais além.
É pena, mas é também muito bom
lutar por este prazer, amém.
Teus e Meus
Teus olhos claros são vasos cheios de lágrimas
tão cheios que não fixam a ação
apenas transbordam com emoção fraterna
gotas de poesias doces e singelas
que pingam, pingam e transformam
o duro asfalto num plácido lago
que, profundo como o passado,
reflete as cores e as coisas da amplidão.
Meus olhos escuros te miram com atenção
tão vidrados que não captam mais nada
apenas buscam decifrar teus mistérios,
penetrar na fragrância da sensibilidade
florida que transpassa por cada poro
da tua suave pele de menina,
mergulhados na paz do teu lago
que umedece meu céu e fecunda meu chão.
O Ato em Si
O ato em si
resplandece
quando acontece
do prazer estar ali
intrinsecamente
impregnado
no exato momento
da vontade imaculada
de realizá-lo.
Mas, se por acaso,
você o reconhece
algo em mim
se engrandece
pois tua atenção
me renova
e mantém acesa
a chama da criação
redentora
que aflora
quando você me olha.
Tesão
Se na dança me desfaço
faço um outro enamorado
e simplesmente entretido
desfaleço em cada passo
no compasso da canção,
sem pudor, ao acaso
todo, todo coração
salto, embalo, rodopio
sou Shiva, Cristo, Dionísio
chego mesmo a ser Ninguém
apenas energia sem nexo
todo sexo, namorando o universo
um verso dançando
escrito por um corpo
inflamado
repleto de tesão.
Paixão
A paixão quando rola
é uma bola de tesão
muito viva e criativa
que infla imperativa
até que um dia estoura,
louca, estrondosa,
sem nenhuma piedade
e a gente se esfola
de dentro pra fora,
preto, branco ou rosa
e chora a dolorosa
ausência da vontade
primitiva de existir
dissipada carinho por carinho
no tempo exato da flor
que, despetalada, sucumbe à dor.
Noite Obscura
Na noite obscura em que me perdi
você não estava, você não tinha vindo,
você não viria mais.
Na noite obscura eu me paralisei
na lembrança do que fomos nós:
dia claro e límpida manhã
de abraços, sorrisos e amor.
A noite obscura me atormenta
e não a quero mais,
por isto invoco versos, danças e canções
- tudo o que sou -
na esperança de que uma nova aurora
me desperte do pesadelo
da noite obscura em que estou
e para que de mãos dadas
possamos de novo atravessar
o portal que leva ao paraíso
do dia claro e da límpida manhã
de abraços, sorrisos e amor.
Cantada I
Te olho de longe, assim meio de banda
(encabulado ainda). Me falta coragem
para chegar mais perto, olhar bem de frente,
e assim, de repente,
dizer como és linda,
capaz de me deixar
como que enfeitiçado,
dominado pela louca vontade de te conhecer
e saber como é o teu viver,
as coisas que mais gosta
pra poder te oferecer
na esperança de que um dia
você venha a se interessar
por um tipo romântico, intrépido amante,
que faria de tudo,
na medida do impossível,
para te fazer sorrir
imensamente, para sempre,
te deixar feliz!
Cantada II
Te quero em silêncio
te desejo em meu íntimo
como o gato que arma o bote
sem, no entanto, ousar o ato.
Apenas o olhar indomável é capaz de traição
dando passagem ao que sinto
no profundo coração,
revelando aos mais sensíveis
minha secreta paixão.
Paixão! Esta palavra atrai ao amante
e é com facilidade que ele a coloca;
que seja apenas desejo,
sexo, amizade ou afeição,
que seja mesmo tudo muito: torrencial paixão!
Não há medo pois a loucura
é amiga da minha razão.
Um beijo eu adoraria, uma noite me encantaria,
ao teu lado meu ser todo brilharia
tigreza, princesa, rainha
quer sair comigo
Riqueza
És rica, como és rica
com sua branca voz divina
voz de vida amanhecida
puro som, limpo lamento,
amansador dos meus tormentos.
Encanto mágico o teu canto
de anjo pleno de talento
serpenteando desde o ventre,
insinuante em cada instante,
por entre meus sonhos inocentes.
És rica, como és rica,
tão rica que me inspira
danças lindas, rimas vivas,
apaixonados movimentos
de um dançarino preso ao vento
intenso, que emana do teu templo,
inspirado, imaculado monumento,
embriagado de vontade,
frutas tropicais, mel e menta:
riquezas d’alma benta.
Além do Bem e do Mal
Além do Bem e do Mal
acordo novo a cada dia
pois todo dia, quando acordo,
tenho a sua companhia.
Além do Bem e do Mal
nossa vida continua
e apesar de tão confusa
quero mais esta loucura.
Além do Bem e do Mal
seguiremos namorados
enxugando juntos nossas lágrimas
nos fazendo sempre apaixonados.
Além do Bem e do Mal
o coração no peito bate forte
e mesmo na fraqueza e na desilusão
faço do escutá-lo o meu esporte, pois
Além do Bem e do Mal
não estão o prazer e nem a dor
ou mesmo a tristeza ou alegria
ah, mas certamente muito além está o amor.
Madrugada
Longe, um barco avança
sob o clarão de uma lua
esplendorosamente cheia
cujo reflexo beija meus olhos
e afaga meu sonho latente.
Não se ouve um pio de coruja,
não se escuta um latido fremente.
Infelizmente, nem mesmo um canto.
(Não, a lua não canta.)
Dentro, um sentido se lança
sobre o infinito de uma rua
milagrosamente vazia
cujo asfalto negro descansa
e serve de caminho para um gato vadio.
Não tocam as buzinas irritantes,
não há motores em funcionamento.
Felizmente, é a hora do silêncio.
(Sim, minha alma canta.)
Travessia
Faz calma no olhar,
há nuvens esparsas no céu
e um arco-íris que não dá,
não dá pra acreditar.
A tarde cai, o dia passa
a lancha vai, minha cachaça
é a travessia
que não sai de mim, não sai.
Tantas vezes foram
que uma luz ficou
entre aquela que foi
e a outra que voltou;
tão clara era
que na paz frutificou
e uma semente de pureza
em lucidez se transformou.
Oh, brisa,
oh, brisa repentina,
brisa que brilha cristalina
no olhar que descansa
entre muitas andanças
e tantas ofeganças
me leva, eu
que criança estou
repleto em teu frescor
de mares e terras outras,
todas ostras, pois pérolas
de sonhos carregam, no sono,
onde eu sou.
Pequena Oração
Astro-Rei, de celebrada nobreza
santificado seja o teu brilhar
e perpétuo o teu morrer, renascer e germinar.
És por ti que a Terra gira e vibra
que a vida é viva e contamina
com amor e com alegria
o pão nosso de cada dia.
Oh, Natureza! Mãe de todos nós,
súditos da tua mão,
te reverenciamos com a pureza da arte
que criamos como forma de oração.
Infinitivo Pessoal
Caminhar por entre alvoradas
orvalhando madrugadas
com o mel das ilusões
Harmonizar os tons fascinantes
que percorrem imensidões
compondo novos horizontes
Formar novas constelações
com as estrelas mais solares
que resplandecerem nos olhares
Viajar na magia do arco-íris
sempre em busca do tesouro
cujo ouro é a harmonia
Amar com a fina sutileza
esvoaçante das borboletas
semeando naturezas
Criar sonhos de alquimia
e neles plantar melodias
que floresçam em poesias.
Ocaso
Imperceptivelmente, avança,
em direção ao eterno consolo
do retorno ao mesmo solo.
Flui, luminosa morbidez,
em matizes harmoniosas
qual bordado de Maria.
Serena, celeste pintura,
desenhada a pulso ausente
com cósmica tintura.
Inexprimível pulsar,
ritmo místico, impulso,
da esplendorosa natureza.
Pleno de espírito, respiro,
sonho nuvens sonâmbulas
e cantigas românticas.
Passo de tudo,
gato sem passo, ocaso,
da ação contemplativa
Mensagem
Sorria, eu te amo vá à luta
curta a vida com doçura
não reclame toque o sonho
fure a onda com o coração
voe longe pinte o sete
eu te canto faça um verso
em qualquer canto componha uma canção
pule o muro flua, seja um rio
troque o disco pororocante
desfrute este balanço no oceano apaixonante
eu te ajudo uma tormenta delirante
com meu ritmo no tolo tédio
alucinante do capenga
celebre, seja leve eu te assisto
dance a vida e compro o livro
seja a ginga sem vacilo
do crioulo ame, seja feliz
muito doido mesmo que seja
do meu samba. ainda mesmo
Como ? Ora, por um triz.
Ode à Família
Família
útero eterno
cama, chão e teto
onde ninguém é demais
e todos são alguém.
Família,
leite e mãe fraternos
pai e pão severos.
Não é tudo
mas é um todo em si mesmo.
Não é nada
mas como é bom amá-la.
Mãe
Mãe Ternura
Apaixonada
pelo rebento que pariu
pela criança que educou
pelo homem que esculpiu.
Mãe Natureza
Eternizada
no lado oculto da lua
na imensidão do oceano
na floração da primavera.
Mãe Amada
Idolatrada
na música que jorra
na dança que sublima
nos versos do poeta.
Presença que nutre, que alegra,
que consola, que revela.
Mãe menina, Mãe senhora,
Abençoada seja sempre a sua hora.
Pai
Se te mato é porque quero
seguir sonhando. O homem bom não perdura
se abandona os seus sonhos. Se te amo
é porque quero seguir teu sonho.
Mas meu sonho não te sonha,
tu que um dia me sonhaste
em um futuro brilhante.
Se teu Dó maior
não se afina com meu Lá distante,
como seguir cantando?
Ai meu pai, se te amo, se te mato,
como seguir vivendo?
Os meus sonhos são sagrados.
O meu respeito é imenso.
De dentro deste amor, só te ouso
prometer um único esforço:
por um mundo melhor,
seguir lutando.
Conselho
Cresce, meu filho, e te prepare
que a vida é muito mais que pátria
é ainda mais que arte
e a melhor escolha possível
é ser e deixar ser.
Todos os caminhos conduzem, amigo,
a curva de um só destino
todo nascer provém de um morrer
há que escolher um caminho e seguí-lo
com a força do teu querer.
Saiba que mesmo com tantos a tua volta
o caminho é solitário e assim tu serás
o que não impede que as mãos sejam dadas
e beijos e carícias sejam trocadas
no eterno jogo de dar e receber.
E quando tu não puderes te dar mais
e o teu desespero for demais
levante a cabeça e dê uma sonora gargalhada
pois não passa de uma grande piada
tudo isto a que chamamos viver.
Édipo Total
Da minha mãe, a capacidade para amar.
Do meu pai, a facilidade em perdoar.
Da esposa, a comunhão com a natureza.
Do meu filho, a vontade de ser.
Do amigo, a necessidade de compreender.
De mim, a força para viver.
Da minha mãe, a comunhão com a natureza.
Do meu pai, a necessidade de compreender.
Da esposa, a capacidade para amar.
Do meu filho, a força para viver.
Do amigo, a facilidade em perdoar.
De mim, a vontade de ser.
Árvore do Amor
O vento, enfim, a derrubou,
a sólida e orgulhosa árvore do amor.
E nem se pode dizer que muito tentou
pois a brisa e a calmaria sempre predominaram
impostas pela majestosa serenidade
que emanava desde as profundas raízes
até o mais ousado dos seus galhos.
Mas eis que numa rajada de ódio
(ah, como é ilusório o nosso poder)
tudo aquilo que era vida vertical
tradição, costume e moral
num mísero segundo desmoronou
e, sobrepondo-se ao sol, fez-se a dor.
Que chova então em nossas almas,
que o inverno gele nossos corações
e o outono espalhe novas sementes
que serão outras e será a mesma
sólida e orgulhosa árvore do amor.
Andarilho
Amar a vida
expandi-la infinita
como o sol que alumia
com o vigor do meio-dia;
e na noite mais escura
as estrelas brilham puras
convidando o andarilho
à novas aventuras.
Pela estrada ele esquece
que segue, mas segue
sonhando seu rumo
sem prumo
e pleno admira
o gesto incontido
do coração expandido.
Viajante
falo
gago
errante
pasmo
ajo
viajante
traço
passo
flamejante
sigo
amigo
amadoamante
Tribos Urbanas
Hippies, darks, funks,
rasteando o lixo urbano;
Yuppies, rastas, punks,
farejando o sangue humano.
Idênticos a si mesmos
mas distantes do próprio umbigo;
mendigos do olhar vizinho,
fingindo estarem alheios.
Compram fiado, vendem dobrado
amam a virtude, odeiam o pecado
cantam afinados, dançam alongados.
Reflexos de tudo o que já foi
projetados na vontade de alcançar
o que será, Chico, que será?
Porto
Rio Douro, ó Porto e seus tesouros
doces vinhos, mil sabores de amores
embalados por seu passo vagaroso
de preguiça assumida, de antiga,
de sabida, de gaivota no pesqueiro
em busca de comida; de boêmio
adormecido nos braços da querida,
musa-lusa da Ribeira, esquecida
por Pessoa mas cantada em versos outros
de um gajo aventureiro, brasileiro numa boa.
Ó Porto, quem navegou por tuas cavas
e não se perdeu nos teus fados
não naufragará em sonhos,
é pena, pois jamais encontrará
aqueles que levam, caprichosos,
a teus tesouros misteriosos.
Canto a Itaquá
Lá onde o mar perfuma a existência
meu corpo se enrosca em ondas perenes
bailarinas de flutuante elegância;
de pedra a pedra vagueio a tua costa
pisando de leve tua branca pele
de ninfa amorosa, cálida e sensual.
És o prazer genial e o principal lazer
de tantos irmãos, do aqui e agora,
dos que foram e que virão: musa imortal.
Ah, Itaquá, amante mendiga
de corpos morenos, sedentos de luz,
não poderíamos jamais te condenar
por seres assim, volúvel e provocativa
pois em ti se harmonizam, tônicos,
a vida, o sol e o mar.
Neste Mundo
Há de tudo, neste mundo!
E, antes, muito e juntos
do que pouco ou justo,
mesmo que confuso,
endividado, engarrafado
e perdido entre mentes obtusas
ofuscando luzes,
erguendo cruzes
por aí e nós aqui,
muito fulos por motivos
quase nulos, abismados
com a grandeza de existir.
Neste mundo, há de tudo,
e ainda há muito para ver
entre mil toques de ternura,
tanta coisa pra saber
no dicionário da cultura
mesmo que venha a esquecer
vale o prazer
e eu quero mais esta loucura
de jogar até ganhar
de procurar até achar
e me perder e me abrir bem junto a ti
e nada me fará desistir!
Estrangeiro
Depois de tantas viagens
retorno a minha cidade natal
e permaneço sendo um estrangeiro
mesmo nas praias do meu litoral.
Nossos verbos são os mesmos
mas a linguagem não mais se assemelha;
cumprimento as pessoas com alegria
mas os diálogos são recheados de falsetes.
Sinto-me um estranho passageiro
em um trem de destino ignorado
repleto de maniqueistas faceiros
manobrado por um maquinista endeusado.
Longa trilha, esta vida...
mas se minha difícil sina
é ser um estrangeiro contínuo
em qualquer lugar que caminhe,
então melhor sê-lo por aqui,
onde nasci, cresci e me perdi,
pois serei, não sendo, enquanto
formos todos, não indo.
Labirinto
Meu coração caminha livre, solto,
envolto nas asas da liberdade
mas uma profunda melancolia
o acompanha, embalada, pelas veredas da soledade.
As voltas deste labirinto formam um trânsito tumultuado,
trânsito louco, mas desengarrafado,
fluído e descompromissado
pois não necessita ser justificado.
O poeta atura o burguês, o burguês admira o poeta.
Amigos são e, apesar da disparidade,
conseguem viver quase pacificamente:
quando um cobra o outro sobra,
quando um canta o outro paga.
E assim o labirinto vai girando
e uma espiral vai se formando,
expandindo a sua vontade.
Vislumbro o núcleo, muitas vezes mareado,
pois uma ansiedade me invade:
desejo a liberdade e a comunhão entre o direito e o avesso,
a estátua e o suingue, a donzela e o machão.
Caetaneando contra o vento, esqueço meu lenço
e meus documentos são roubados
(o dinheiro já havia acabado).
Solteiro, casado ou divorciado,
serei sempre namorado, ardendo ao acaso.
Tomo coca-cola, como arroz integral,
devoro um BigMac e bebo mate
na mais pura mistura
pós-natura e pré- vanguarda.
Na televisão, na rua ou no teatro,
aonde eu dançar meu ego agradece
envaidecido pelo seu aplauso.
Viajo em naves tele-espaciais
e transo telepatia quando estou apaixonado.
Corpo, mente, alma,
busco sempre o positivo
mesmo naquilo em que ninguém mais acredite.
O mistério para mim é um Deus
assim também como o são
a beleza, a justiça e a verdade
e mais Deus ainda é a minha fé inabalada
pois eu nunca acredito em nada!
Lembranças
O chão é rosa, a copa é frondosa,
o sabor é doce, o fruto é roxo,
o ônibus passa, a lembrança fica,
a infância estica e a cabeça gira
na direção perdida da imagem rica
que ficou, do pé de jambo que passou
e eu lá, trepado, amarrado no sabor
que me vem agora à boca
quando paro no sinal
ou será que engarrafou?
que calor!
a buzina me desperta, fico alerta
suspiro fundo, mas não muito
que a fumaça já é muita
e não para de aumentar
que droga!
toda esta poluição logo agora
bem na hora de lembrar...
Tudo é verso, é certo,
inclusive o reverso
e é disto que vive
meu compadre, o homem moderno,
erecto, orgulhoso no seu terno
italiano, importado,
ora, que importa! o importante
é que algo fique na memória,
mãe da história
que um dia eu vou contar
na esquina de outra vida
que outras vidas, enfim, vão perpetuar.
Não, não é minha culpa
se a música que toca
abre todas as comportas
e o sentido adormecido,
de repente, faz sentido,
trazendo uma enxurrada de emoções,
formando novas melodias,
compondo antigas canções.
Quem diria, comia mariscos
em Madri e sentia na boca
aquele gostinho salgado
de soca na Itapuca,
a praia da pedra maluca
onde o surf era a ordem,
a onda era a conquista
e a lei era impulsiva:
“antes de mais nada,
tudo é possível!”
E é impossível esquecer
se você não se perder
no requinte da automatização
pois a memória emocional
não cabe na programação
de um computador de dados,
dardos no espaço, passos
apressados em várias direções,
botões apertados, brinquedos quebrados
por mãos estabanadas, bolinha
de gude na praça, futebol
de botão com meu irmão,
o time da escola, a mãe preta da casa,
a vaca malhada que pegava
e eu suava pra escapar
sem sofrer um arranhão
na cerca de arame farpado
que cercava o curral da imaginação:
bolhas, bolhas, muitas bolhas
de sabão, são lembranças
que se desfazem
como brincadeiras de crianças
na palma da minha mão.
Sábado
A noite ainda respira e, assustada,
vislumbra o jovem que, inquieto, clama
e pinta a fada e acende a chama
da movimentada madrugada.
Retiro tudo o que é meu,
que a duras penas me pertence,
potente ainda e tanto mesmo
que me ponho a escrever
tudo o que acabara de ler
na vida que pulsava a mil
em cada bar, em cada pub,
em cada mero olhar furtivo
que cruzava o meu, calado,
embriagado pela morte azul da lua
assassinada pela falta de atenção
de estressados namorados
que espremidos em boates
se esfregavam ao som do rap
adormecendo o coração,
afogando a dor no sábado.
Ai, meu sábado, quanto estrago
já sofri, bêbado por vergonha
de quantas festas já fugi
quando as brigas começavam
garrafas quebradas, punhos cerrados,
amigos esmurrados
e eu nem havia beijado
aquela doce criatura,
pura, recentemente conquistada.
Ai, meu desejo, quantos beijos
já te dei e tu ainda me sorri,
chega de mansinho,
me afaga com carinho,
me chama de menino
e eu com 30 não aprendi
a recusar os teus anseios
disfarçado por meneios.
Ai, meu desejo, frágil espelho,
na falta de tudo, te culpo,
no beijo da aranha, me assanho,
no calor do humano, te amo,
e tua boca carmesim
saca a língua, me envolve,
e eu não luto, me entrego,
e acabo louco, ortodoxo
sendo o rei do paradoxo.
Ai, meu sábado, quanta saudade,
e se hoje do meu canto
vivo tranqüilo a espreitá-lo
é porque faz parte de um passado
juvenil, irresponsável. Energia
transformada em versos tristes:
Poesia.
Divagações
Pergunto...
Quantas situações criaremos com nossos
atos e ambições?
E quantas outras criarão em nós
desejos e ilusões?
Hoje estou tão poeta
amanhã, quiçá, burguês.
Quando não estou pensando
assisto a televisão,
mesmo estando desligada
reflete aquele que não vê,
mesmo sendo desligado,
nunca deixo de comer!
E eis que então se arma o pranto
e tudo o mais se torna canto
e coro e voz e corpo e dança.
Poder...
Não mais do que tudo poder
antes nunca do que a tarde caia,
logo quando venha a saber
tantas coisas infundadas
que os mais loucos batam palmas,
a mais casta tire a saia
e o mundo exploda de prazer!
Amada...
Que faz todo o universo
presente em meu ser.
E o que faz meu todo
quando sente este prazer?
Orgasmos,
mansos, suaves, deliciosos orgasmos,
quando vaga-lumes impunes
brilham todos de uma vez
e a floresta resplandece e pulsa nua
ninfeta louca, puta e crua!
Desculpais...
Me assustam tantas coisas,
tantos anos, tantos homens,
tão sozinhos, tão mesquinhos,
tão capazes que nem sei,
que nem mesmo saberei
e assim mesmo julgarei:
Inocente, borboleta esvoaçante.
Culpada, cascavel rastejante.
Perdoada, amada amadamante.
Condenada, a falsa extravagante.
Quem, quiçá, que sou?
Lá, não há, estou!
É tudo ou nada,
é plunc e plou!
Silêncio...
Apenas a voz do santo
canta a vez e a esperança
a quem aguarda solitário,
entre nuvens carregadas,
os presentes de um passado
inquisitivo, fugitivo,
e, ademais, calado.
É verdade, não se cansa o palhaço,
não se ouve o estardalhaço,
não se sabe nunca nada,
que salada!
perdido entre os espaços,
armado de ternura e estupor,
bendita seja a voz do sonhador!
Bispo do Rosário
Vestido com seu manto bordado
com desenhos e inscrições nascidos
de sua vibrante imaginação festiva,
lá vai Bispo do Rosário,
em seu reluzente navio-fantasma,
pirata dos porões da mente,
saqueando o inconsciente
para extrair o sumo onírico
com que compõe sua obra artesanal.
Lá vai ele, visionário,
navegando sonhos pelas costas
de um país demente
que jamais lhe deu a frente,
combatendo bravamente
o destemido inimigo racional,
destruidor do seu adorado caos.
Francisco
Francisco... ah, meu Chico!
Perdoe tanta intimidade
mas ela é o doce fruto
de uma admiração profunda,
de uma abnegação comum
e de um amor que nos une
nos amplos campos de lírios,
no singelo cantar dos passarinhos,
nas misteriosas florestas do espírito!
Ah, meu Chico, quantas lágrimas
você me fará ainda derramar
neste solo tão cheio de injustiças
com o exemplo santo de uma vida limpa
lavando a alma mais encardida
como a chuva fina que germina,
incondicionalmente, novas formas de vida
coloridas pela sua rica mensagem
de dar e amar, de paz e bem.
Ah, meu Chico, como é bom estar contigo!
Cristo
Ò Cristo das mãos retorcidas!
Te olho de baixo
e admiro teus pés limpos.
Ò Cristo das costelas expostas!
Te sinto comigo
na solidão do meu umbigo.
Ò Cristo do sexo escondido!
Te renego com a força
do meu sexo assumido.
Ò Cristo dos braços abertos!
Te abro meus braços
e com carinho te abraço.
Ò Cristo de explosivo plexo solar!
Te acompanho na dança
que balança e faz pensar.
Ò Cristo da voz profunda!
Te escuto com atenção
e minha respiração se aprofunda.
Ò Cristo da cabeça erguida!
Te venero na verdade
da lição do compromisso.
Daime
Fecho os olhos e um outro mundo transparece
multicolorido, multifacetado, multidimensionado
como um caleidoscópio assombrado
onde a coragem é o anjo alado
e o medo, o chifrudo diabo;
como um túnel do tempo sem tempo
onde o real cede ao ilusório
e o sonho se torna a morada,
habitada por seres abstratos
que pressinto por entre as cores e formas reflexas
nas profundezas do inconsciente desnudo
dito sombrio, mas visto belo e complexo.
Abro os olhos e a fogueira reaparece
ardente, chamejante, caliente,
cercada por seres animados
semelhantes a mim no formato,
semelhantes a Deus, como o resto,
cada qual obcecado com sua viagem.
Me sinto de todo apaixonado,
por todos os seres e a aura que os envolve,
é a vida pulsando em harmonia
em cada átomo, em cada ato,
é o amor a tudo o que é vivo,
o que me ensina a morte diária.
Liberdade
Liberdade, ó pátria amada,
onde os braços executam, árduas,
as leis que os doutos traçam
e pernas bambas me sustentam
quando o peso da existência grávida,
sem piedade, me desgasta
ou me atira em abismos imaginários
fecundos por minha própria ociosidade
alternando momentos de paz iluminada
e luta muda, desregrada,
com amigos e inimigos que penso conhecer
quando navego à deriva
na falsa lucidez das certezas óbvias
que a razão insiste em conceber
quando pressente o sofrimento
e inclusive mesmo o prazer
multiplicados por esta a quem confio
os esforços de uma vida eternizada
sempre pátria, sempre amada,
ó toda liberdade!
Hino ao Grito
Indignado, o homem não pode calar seu grito
pois esta omissão fará encolher o seu espírito.
A luta pelo direito é um dever para consigo
e a essência do direito está no grito.
Pior do que ter um direito infringido
é aceitar passivamente a ofensa sofrida.
Portanto, não sufoque jamais o seu grito:
seja o rugido instintivo, enfurecido do animal,
seja a sábia palavra, asa e arma racional,
solte, homem, o seu grito,
grito calado é sangue estancado
gangrenando o coração,
corroendo cada passo dado
na direção incomensurável
da expansão da liberdade.
Tudo está marrom
Jaz no chão com o corpo disforme
o corpo retorcido de cor marrom
do garoto pequenino de aspecto franzino
que caiu furado, Deus sabe por quem,
no asfalto manchado mais uma vez
pelo sangue nosso de cada dia
que, dia após dia, aumenta e forma um rio
de miséria, ignorância e revolta
onde bóiam os ricos e os políticos
enjaulados nas barras do medo opressivo
todos, todos, rumo ao mesmo destino.
Ò Pai, tudo está marrom!
Que caiam os corpos, se devem cair,
mas não assim, não furados;
que caiam cansados, estafados,
após uma vida de árduo trabalho;
que caiam doentes, acidentados,
na fraqueza e no desespero da carne;
mas que caiam, sobretudo, com dignidade.
A vida vale, você sabe,
muito e tanto, que tudo
que fizermos para preservá-la,
enaltecê-la e honrá-la,
será pouco, será nada
se não for soberana a vontade
de que atinja a todos
indiscriminadamente, como um raio,
do menos favorecido favelado
ao mais abastado milionário.
Vala Coletiva
Um buraco fundo cavado na terra sombria
ao lado de outro buraco e outro e muitos,
todos juntos formando uma imensa vala coletiva
onde foram largados, onde são jogados,
onde serão enterradas as carnes já frias
das vítimas de mais uma monstruosa chacina.
Um povo desesperado agoniza, impotente,
nas mãos de uma polícia enlouquecida,
doente, carrascos de um governo inoperante.
Sem-terra, sem-comida, sem-saúde, sem-emprego,
somos cem milhões de desprovidos
prontos para as próximas chacinas.
Quanta barbárie caberá ainda neste Brasil
que quer ser rico mas é apenas mesquinho,
que finge ser grande quando grande é a sombra
das lágrimas dos que velam suas valas?
Quantas valas serão cavadas na sala de visitas
no horário mais nobre da telinha colorida
enquanto escondemos nossa cara envergonhada
sob um prato quente de comida?
Dinheiro
Vejo mansões grandiosas
em lugares privilegiados
mas, que vazias!
suas piscinas e sacadas.
Vejo salões decorados
e pisos deslizantes
mas, que pena!
nenhum casal está dançando.
O ar é limpíssimo
o astral é altíssimo
mas, que triste!
não há ninguém sorrindo.
Eu sei, o dinheiro ajuda muito
e compra mesmo quase tudo
(desde amantes esfuziantes
a drogas alucinantes)
mas, qual o preço do dinheiro?
E se pesarmos na balança
com o valor da própria vida?
Quando é ganho com suor,
prazer e honestidade,
vale mais do que a nota indica;
mas quando é fruto do roubo,
da esperteza e da cobiça,
valerá tanto quanto
o que seu corpo gravará?
A perda da amizade,
esta pérola sem a qual
a vida é quase nada.
A inocência embrutecida
pela corrupção e pela hipocrisia.
A falta de alegria
espontânea, sem ajuda da bebida.
E um peito tão fechado
por um sentir tão encubado
que o amor fica enrugado.
Valerá, pergunto só por perguntar,
valerá o preço a se pagar?
O povo quer saber
O povo quer saber
por que vive na miséria
quando outros,
muito poucos,
desfrutam mordomias
e se concedem regalias.
O povo quer saber
por que a lei é dura
apenas para os duros
enquanto os ricos podem tudo
pois há sempre mil recursos.
O povo quer saber
por que o Estado é tão rico
e o serviço público tão fajuto.
O povo quer saber
mas não querem que o povo saiba
porque é na ignorância do povo
que reside a força
daqueles que detêm o poder.
Grades
Perdoem as grades,
inimigas da liberdade,
mas protegem nossas vidas
e já se incorporaram à paisagem.
Estão por todas as partes:
nas janelas, nos portões,
nas entradas, nas saídas,
sempre duras, sempre frias,
sempre barras divisórias
fixadas na memória.
Nós que gostamos de enjaular
passarinhos e animais
enjaulamo-nos também
mais e mais.
Será uma lição da vida,
a moral da história
ou apenas gosto pessoal?
Vivemos acossados
com medo do próximo
que nada tem
quando temos mesa farta
e passamos tão bem.
Nos trancafiamos
com nossa família e nossos bens
e entregamos a chave
nas mãos de um destino
que não fará justiça com ninguém
porque justo não é apenas
punir o pobre que rouba
quando deveria trabalhar,
é punir com rigor o rico ladrão
que com sua ganância
aumenta a miséria do povão,
mas estamos tão distantes
desta justiça tão óbvia
que não sei não...
Haverá ferro suficiente
para que cada um tenha
sua própria gaiola?
O Palhaço lá da praça
Estava já cansado e sentou-se ao meu lado
em um banco lá da praça.
Vestia um collant bem colorido,
tinha o nariz, boca e olhos pintados
e comia tranqüilo castanhas e passas.
Eis que acercou-se de nós um menino,
queria um pouco de castanhas e passas
e também falar com o ser raro.
A comunhão foi imediata,
logo ouvia atento às estórias fantásticas
que falavam de gatos, bolas, fadas
e das coisas lá da praça.
Mas, de repente, chegaram seus pais,
o menino não podia incomodar
-que piada- o ócio do palhaço!
Levaram à força o curioso
a um lugar mais afastado
onde reinaria a paz forçada.
Eu, atordoado, chorava.
Pensava no meu filho distante,
na vida em sociedade,
nas estórias do palhaço
e pouco a pouco foi crescendo
no meu peito um sentimento
de revolta contra o medo,
de esperança e fé na vida,
de amor à liberdade!
Realidade Virtual
Visual, o tal
não perde nunca a moral
tem compromisso total
com o tal do capital.
Sempre formal
se pensa especial
por carregar no metal
o seu valor social.
O tal, quando rima, rima mal
tipo racional
altamente fatal
para o poético em geral.
É, sem dúvida, a imagem ideal
ordenada por um banco central
para uma sociedade artificial
baseada na realidade virtual.
Uma Lágrima
Uma lágrima
no canto esquerdo do olho direito.
Uma lágrima pesada,
misturada à maquiagem barata
do palhaço que tentou fazer graça
na exata hora errada,
na hora da banalidade responsável
da coisa séria
que o dever reclama e a razão inflama
e o palhaço sem relógio entrou de gaiato
no sapato da história
sem, ao menos, ter sido respeitado
e saiu, no barato, pisado e humilhado
porque é no circo o lugar deste aloprado
-disseram- assim como o banco é o abrigo
detestável -retrucou ele-
do avesso do engraçado,
do escravo do dinheiro e carrasco dos negócios
que não brinca em serviço, nem fora,
não ri se não for compensatório
e não ama se não for em dólar.
Todos temos uma lágrima no canto escondido
do olho perdido de um corpo ferido
e é com a minha que eu, desnudo,
escrevo o assunto, exorcizo e consumo
o palhaço que assumo.
Existir, seja como Flor
Flor da vida no poder,
pétala suave a comandar
um jardim que de espinhos
está farto e esgotado.
Já não cheiram tuas esquinas
a acácias, lírios, dálias,
não se tocam as extremidades
com doçura e amabilidade.
Sua cor agora é uma
cor sem brilho e desbotada,
arco-íris sem o íris,
sem tesouros a encontrar.
Flor da vida, minha dança,
faça tu agora as contas,
distribua aos quatro cantos
teu amor, tua esperança.
Apazigúe teus espinhos,
deixe a abelha trabalhar,
o mel vai ser tão puro
e ainda vai sobrar.
E quando chegue o beija-flor
beije a vida, abrace o ar,
a água vem do céu, vem gratuita
como a clara luz solar.
Flor da vida, altiva flor,
teu poder está na pétala
abra os braços, maravilha,
assuma já teu esplendor.
Ainda prezo mais minha consciência
que a minha loucura!
Quem faria um lustre de uma cabaça rachada
e escreveria o próprio nome na cabeça raspada?
Quem viveria “legal” sem usar de drogas
e se drogaria numa igreja usando coroas e fardas?
Quem se masturbaria num palco vestido de fauno
e esbofetearia um amigo por ter maltratado um cavalo?
Quem em meio a tortura e a morte insistiria com a verdade
e beberia cicuta com toda boa vontade?
Quem cavaria um túnel pelo simples prazer da labuta
e cortaria fora a orelha pelo amor de uma puta?
Um dia os loucos me convidaram para uma grande festa
e com danças e contos de outro mundo,
me seduziram e me encantaram.
Embriaguei-me uma lua inteira com o néctar
da beleza e da verdade;
desperto na nova, encontrei-me sozinho e abandonado
com a loucura herdada
e com o sangue que me restava na veia
amaldiçoei a todos estes desgarrados
piratas d’alma alheia.
Mas a tarde era tal que o sol como que me dizia
qu’eu deveria acompanhá-lo.
Lancei-me então à vida como se fosse a lida
a minha única saída
e tracei com este impulso as linhas onde comporia
minha sina, minha dança, meu recado, minha vida.
Drogas
Na onda da lucidez
eu sou rei e mais sei
sobre mim e coisas afins
assim meio serafim.
Viajar é preciso
mas é nas asas da pureza
que eu me realizo
e me integro à natureza.
Antes a inocência dos sentidos
que uma loucura sem sentido
pois se a consciência é um barato
o preço do vício é muito caro.
E, depois, não vai ser a alucinação
de uma droga corrosiva
que vai dar asas à imaginação
de um viciado sem amor à vida.
Ato Fálico
Não escrevo para os intelectuais
porque os perco
sempre que buscam rebuscamentos
nas linhas simples e concisas
por onde flui meu pensamento.
Não escrevo para os bailarinos
porque não costumam ler
ocupados que estão com os pés
pontados, barrigas e nucas enxutas,
vítimas de uma estética dietética.
Não escrevo para os poetas
porque não tem olhos
que não sejam para a própria poesia
egocentrados na hipersensibilidade,
obcecados por suas sombras solitárias.
Não escrevo para os amigos
porque já me conhecem,
aprenderam a ler nos meus olhos,
a decifrar meus silêncios
e a comer no mesmo prato.
Não escrevo para a posteridade
porque não acredito mesmo
que exista tal coisa
que não seja para consolar a vaidade
inconformada de um presente frustrado.
Não escrevo nem mesmo para mim
porque não suporto ver-me duas vezes
e cada vez que me revejo
espelhado nos meus versos
tenho uma vontade louca de correr.
Por que diabos escreves então?
perguntarão os ignorantes,
meus irmãos de consciência,
que me instigam com sua audácia
a dar o melhor de mim.
Não escrevo para nada
porque o tudo é a mão
que me move, leve pluma
do desejo, desvendada
neste fálico mistério.
Sem Destino
Não escreverei mais, pouco me importa!
Nem mesmo aprecio os grandes poetas,
apenas algumas linhas mesquinhas
me acompanham na minha mandinga
mas, uma antologia? que agonia!
decifrar polidamente
os enigmas destas poderosas mentes
que despejam palavras
numa enxurrada de metáforas
e citações eruditas que espelham
uma memória prodigiosa
de computador último tipo.
Vai estudar, menino,
coloque-se no seu lugar!
Ai, meu pai que mora em mim
e que nunca se cala
porque eu nunca estou onde deveria estar,
porque eu nunca sei onde gostaria de estar.
Vai estudar, menino,
ou faz algo que te dê algum dinheiro
porque de menino já te basta o teu filho
que tu tens para educar.
Ai, meu pai que mora em mim,
dono da minha vergonha, que me põe no meu lugar,
um lugar no mundo do respeito, sem despeito,
das regras restritas da sociedade, sem maldade,
um sujeito amigável! um artista respeitável!
que bonito, e ganhar um prêmio qualquer,
doá-lo a uma instituição de caridade
e voltar para casa orgulhoso
com a vaidade lavada e enxugada
pelo elogio alheio -a puta vaidade!-
esta grande cúmplice do poder, colorido ou enegrecido
que fala pela boca gulosa do meu pai fora de mim:
vai trabalhar vagabundo!
que não passas de um preguiçoso
metido a poeta, este trágico,
e ainda por cima bailarino, este menino,
sem diploma, sem destino... que destino?
se no futuro estaremos todos lindos,
engomados, engravatados no túmulo do mundo!
Utopia
Na minha poesia o dinheiro não pinta.
Pintam umas meninas, pintam ricas aventuras
mas o papel moeda não pinta.
Não pinta a casa própria,
não pinta um carro do ano,
não tenho nem conta no banco.
Eu canto, eu danço,
eu sapateio, eu esperneio,
a cabeça está sempre cheia de idéias
mas o bolso está sempre vazio.
Por mais que eu pinte, a grana não pinta.
Eu não sou consumista, não sou elitista
mas também não sou masoquista
e sem grana no bolso
a coisa fica difícil,
fica ruim tocar a vida
no compasso desta utopia.
O sonho não acabou
Não, você não está sozinha,
o sonho não acabou!
Talvez tenha apenas mudado,
aliás, como tudo o mais.
Para uns, nem isto,
sonho de cristal.
Para outros, é o fim da história,
tipo radical.
Para mim, apenas mudou,
permanecendo o essencial
que, entre outras coisas,
consiste no próprio sonhar.
Afinal, sempre haverá
desejos desejando
e algo a melhorar.
Sim, estamos juntos
e nosso dia vai chegar!
Mediante
Mediante o que faço
meu ato se torna fato
e, visto que arrisco,
a cada passo
beiro o abismo.
Mediante o que penso
meu senso se torna imenso
e, visto que sou louco,
meu pensamento todo
é um pouco obsceno.
Mediante o que calo
minha dor se torna mágoa
e, visto que sou burro,
a cada emoção,
fico mais mudo.
Mediante a situação
meu ser pode não ser
e, visto que sou único,
sou quando não
minto que sou muitos.
Touro Calado
O touro descansa à sombra da mangueira.
Rumina idéias.
Já fecundou algumas vacas,
o pasto é vasto
e agora se sente entediado.
Aquele garoto virá de novo molestá-lo
mas ele não lhe fará caso.
O vermelho tem vários matizes,
o toreo é um jogo arriscado
e o toreiro um grande safado.
Prefere as vacas.
Rumina o pasto.
Já fecundou algumas idéias,
o touro calado.
Ludismo
Sou lento,
a poesia
é meu único
tempo.
Mas mantenho
a mente lúdica
sempre dançando
no ritmo da música.
Essência
Há uma ciência na essência
que transcende a incumbência.
Não a quantidade que cansa
mas a qualidade que expande.
Esta é a minha crença.
Poesia de poucos adjetivos,
de sujeitos objetivos
e desejos substantivos.
Este é o meu sentido.
Comunhão
Uma prece antiga toma forma
no corpo de um pássaro raro
que observa os séculos passados
com impassível sobriedade.
O que rezam todas as preces?
O que cantam todos os pássaros?
Na arte de uma caligrafia mágica
o mistério de um povo sábio
é traduzido com a majestade
de uma leve mão abençoada.
Aonde levam todas as artes?
Aonde moram todos os povos?
Os corações que se unem
no bater das asas dos pássaros
sabem que as preces dos povos
comungam com o mistério das artes.
Como unir todos os corações?
Como sermos todos sábios?
O Pescador
Na espreita da manhã que se inicia
o pescador, desde sempre, já é a pesca do dia;
fisgado em sua alma pela gigantesca força marinha,
seu reflexo nas ondas calmas das águas claras
é o maior troféu de quem olha de cima e tudo vê
com belos olhos de prisma criador.
No seu barquinho, com seu anzol,
cantando baixinho, o pescador, é o meu herói;
as tardes passam, o sol corrói,
pescando peixinhos, o pescador, sabe que dói
mas come calado e pede perdão
na sua oração, ao Todo Poderoso Salvador
que não salvou ninguém, mas, tudo bem,
pescou mais um coração.
Frases feitas (ou quase)
Há dois sentidos na vida
e um destes, eu te digo,
não faz nenhum sentido.
Vencedor é aquele que,
mesmo perdendo,
não se sente derrotado.
Minha agressividade é metafísica.
Não gosto de agredir,
prefiro transgredir.
Eu sonho acordado,
sonhar dormindo
é para quem dorme acordado.
Se o amor não for o ar que respiramos...
Museu
Na solidão do museu
as obras me olham
e eu reflito
o que em mim
se revelou.
Quadro
(inspirado em pintura de Salvador Dali)
Meu crânio rachado brilha
e reflete a castidade de um céu
densamente tingido
por um longo azul angustiado.
Às minhas costas, altas escarpas,
oprimem o que foi em mim,
em ti, em todos os sozinhos,
sonhos de aventuras e carinhos.
Minha face inclinada projeta,
desolada, uma sombra abandonada
que me protege e descolore
a árvore maciça que sangra,
copiosa, sobre o peito inchado
com raízes que são como veias
ramificadas infinitamente
por mil sentidos cientes
de não saberem quase nada.
Sob o peito, inescrupulosamente,
uma porta se abre
sem uma tênue luz que a ilumine
talvez porque ali não haja
nada semelhante ao raciocínio,
apenas o espectro de uma intuição
que nunca fez muito sentido
mas é por esta porta que eu respiro
o ar denso e clandestino
que permeia o espaço entre a moldura
impregnado por uma latente loucura.
O Pensador
(inspirado na escultura de A. Rodin)
Carregado de uma inefável força reflexiva
que absorve todo pensamento que gravita
alimentando seu espírito com a proteína
que extrai da sabedoria implícita
em cada molécula organizada que vibra
na poderosa dança da vida viva
o Pensador, não obstante, imóvel, sublima
todo o movimento que a vontade excita
condensando no vigor do bronze o estigma
de potência que o pensamento anima
capaz de fazer do homem uma obra-prima.
Blues
No dedilhar colorido das cordas de aço
a teimosa alegria que, disfarçadamente,
sorri, ensinando que o prazer é forte
e resiste a um passado martirizante.
No choro melodioso da gaita de boca
a inexorável alegria que, acumulada,
cruza os ares em ondas crescentes
penetrando sutilmente na mente alertada.
No cantar louco de uma voz rouca
o sentimento mais profundo, qual for,
ganha eco na garganta do mundo
e reverbera nos corações plenos de amor.
Na cadência que aprisiona o tempo no tempo,
a marcha de uma gente que, escravizada,
dançou sobre a terra apodrecida
transformando lama em terra fertilizada.
Nas letras que narram a saga sofrida,
a simplicidade repleta de beleza
de quem se alimenta da raiz fincada
no solo distante da pátria-mãe natureza.
Água Escondida
No fundo do poço mais fundo do mundo
onde impera perene o doloroso desgosto
da estéril incomunicabilidade dos pilares
virtuosos de muitas horas minhas dedicadas
as agruras, umas da dança, outras da poesia.
Apenas lá, na mais serena harmonia,
resplandece, lúcida e sublime, a música,
fluindo misteriosa não se sabe de onde
unindo dança e poesia num abraço melífluo.
Do alto deste imponderável desvario,
com o olhar vago, perdido neste abismo,
respiro fundo, condensando meu impulso
pois só me resta esta alternativa suicida:
atirar-me neste poço profundo, translúcido,
para beber desta melodiosa água escondida.
Oh, louco!
A passos lassos
percorro calçadas
sob o olhar opaco
das múltiplas janelas
dos prédios altos,
imponentes guardiães do asfalto.
No centro de uma metrópole agonizante
cruzo tantas vezes com tantos outros
que entre ternos e gravatas
me esqueço como outrora
fui um outro
bicho solto
dançando entre poucos
namorando borboletas
Oh, louco!
Ontem? Ou hoje?
Quem sabe apenas amanhã
quando, em dissonantes fraternais,
harmonizar meus animais.
Anistia
Poesia ia, ia, ia, mas não foi.
Alegria ria, ria, ria, mas chorou.
Quem não cria, chia.
Poesia é anistia.
Quem não foi, nunca voltou.
Adeus
Adeus, fico só,
pó da terra, grão de areia,
estrela já sem brilho,
gota d’água que não pinga.
Adeus, não tenha dó,
sou assim, menino,
invento jogos impossíveis,
faço coisas escondidas
que você não adivinha.
Adeus, mais uma vez,
apenas faço um exercício
pra passar o tempo amigo
pois a noite só engatinha
e eu me sinto assim... espinho.
Não, não pense mal,
melhor mesmo nem pensar,
descansa, relaxa seus miolos
e se for capaz... suspira.
Isso, com mais prazer,
e sinta como aos poucos,
assim como quem não quer nada,
vou penetrando em você!
Se assustou, hem?
Não foi nada, no fundo
não tão fundo da moral,
eu só queria te conhecer.
Oração Final
Peço aos deuses que me olhem
e orem ao meu ouvido
os versos que me vestem
quando, cúmplice desta hora
mais tranqüila,
dispo a máscara do bispo.
Peço aos anjos que me guiem
e iluminem o meu caminho
(tão fadado ao desvio)
quando, chegada a hora
mais imprecisa,
perco o passo em desatino.
Peço aos homens que se amem
e que cresçam como amigos
pois, na hora mais antiga
da triste despedida,
este é o tesouro
que se leva desta vida.



